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Princípios do Vestir Consciente

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Iniciativas como de Ana Cândida[1], presidente do Instituto Ecotece[2], ao promover o curso “Princípios do Vestir Consciente”, contribuem para uma reflexão acerca da possibilidade de mudança para o atual Sistema da Moda estabelecido.

O curso deu diretrizes de como é possível construir o belo, essencial à moda, considerando a sustentabilidade, essencial à manutenção da vida, a partir de uma visão sistêmica da cadeia produtiva do vestuário, dos princípios de avaliação do ciclo de vida do produto e das reflexões sobre as conexões entre a moda, o vestir e a consciência.
 
Durante o curso, foram apresentados os conceitos do “Vestir Consciente” com base nos fundamentos do design sustentável, nas atualidades do mercado e nas experiências dos participantes, seguindo as diretrizes da metodologia desenvolvida pelo Instituto Ecotece. A metodologia de aprendizagem abordou o conteúdo por meio de conceitos, dinâmicas interativas e exercícios práticos em todas as aulas.
 
Maria Cecília (lojista, Cuiabá), Lívia (artista da moda, Belo Horizonte) Andressa (estilista, São Paulo), Cristina (bióloga, Recife), mulheres de diferentes profissões, lugares, idades, mas com um ideal em comum: pensar a moda de um outro modo. Sem peles, sem agrotóxico, valorizando o feito à mão, para criar uma roupa que dure, que tenha memória de quem a veste. Um NÃO para a efemeridade, o trabalho escravo, a matança de animais. Utopia? Não. Necessidade!
 
A moda reflete o comportamento da sociedade. A sustentabilidade ambiental está sendo discutida em todas as áreas. Não é mais possível criar qualquer produto sem considerar o impacto que ele vai gerar durante o seu ciclo de vida.
 
O conceito de sustentabilidade ambiental é contemporâneo e surgiu no âmbito daquilo que denominamos cultura da pós-modernidade. Foi criado há mais de trinta anos para indicar que era possível conseguir o crescimento econômico e a industrialização, sem destruir o meio ambiente[3].
 
O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades[4]. Essa definição trata de dois pontos fundamentais: o problema da degradação ambiental, que geralmente acompanha o crescimento econômico, e a necessidade de que esse crescimento contribua para reduzir a pobreza.
 
Portanto, o desenvolvimento ambientalmente sustentável implica três grandes desafios para a humanidade. Primeiro: garantir a disponibilidade de recursos naturais transformados em bens e serviços necessários no cotidiano. Segundo: não lançar sobre a biosfera do planeta substâncias tóxicas, resíduos e poluição, decorrentes da produção e uso de bens e serviços em quantidades e velocidades superiores à capacidade de autodepuração da natureza. Terceiro: reduzir a pobreza mundialmente[5].
 
Apesar de mais de três décadas de preocupação com a sustentabilidade ambiental, ainda continua a redução dos recursos naturais em quase todo o planeta, assim como os problemas da pobreza. Ou seja, são grandes os desafios da humanidade para chegar ao desenvolvimento ambientalmente sustentável.
 
Qual é a razão para um processo tão lento para uma mudança, de respeito e de valorização, na relação do homem com o meio ambiente, tão necessária para o futuro da humanidade? Seria devido a sua própria dimensão antropocêntrica?
 
A definição de sustentabilidade ambiental é antropocentrista: futuras gerações de pessoas possuem tanto direito a viver fisicamente seguras e saudáveis como as pessoas das presentes gerações. Cada ser humano está sob uma obrigação de não permitir que o meio ambiente natural se deteriore a ponto que seja comprometida a sobrevivência e o bem-estar dos futuros habitantes humanos da terra. Também possui um dever de conservar os recursos naturais para que as futuras gerações possam usufruir dos benefícios derivados desses recursos. A responsabilidade presente de proteger espécies selvagens ameaçadas está ligada aos valores humanos. Além do mais, algumas vezes usa-se o argumento de que a variedade de espécies de plantas e animais é necessária para desenvolver novas maneiras de proteger os humanos de doenças, livrá-los de bactérias perigosas, de aprender como controlar certos insetos e outras “pestes” e produzir novas fontes de alimento por meio da engenharia genética. Os humanos também possuem uma obrigação de preservar a beleza da natureza selvagem para que as futuras gerações possam ter tanta oportunidade de experimentar e apreciá-la, como no presente. Seria injusto destruir as maravilhas naturais do mundo e deixar apenas lixo para outros contemplarem. Além do mais, um sistema inteiro de padrões e regras governando a conduta no presente em relação ao ambiente natural da terra, pode ser formado apenas a partir dos interesses e necessidades humanos[6].
 
A partir do ponto de vista da teoria biocêntrica da ética ambiental, as obrigações para a natureza não se sustentam pelas obrigações com os humanos. A ética ambiental não é uma subdivisão da ética humana. Embora muitas das ações estejam corretas de acordo com uma teoria biocêntrica, há o que torna essas ações corretas no caso de um jogo completamente diferente de considerações. Os princípios morais envolvidos são fundamentalmente separados e distintos. Os dois pontos de vista, um sistema ético antropocêntrico e biocêntrico, nem sempre possuem os mesmos resultados. Isso implica uma diferença prática na forma como os humanos tratam o ambiente natural. Quando a teoria biocêntrica representa o foco central da análise, as obrigações e responsabilidades a respeito dos animais selvagens e plantas da Terra são vistos para levantar certas relações morais entre os humanos e o mundo natural. O mundo natural não é um simples objeto a ser explorado pelos humanos, assim como também não o são as criaturas que podem ser utilizadas como nada mais que recursos de uso e consumo[7].
 
É comum a crença de que a existência do ser humano é mais valiosa do que a existência de um animal ou planta. Humanos vivem em um plano superior, possuem uma dignidade e um valor que estão ausentes em outras formas de vida, ou seja, são mais importantes; algo de maior valor é perdido para o mundo quando morre um ser humano, enquanto com a morte de um leão, uma serpente ou uma árvore não tem um valor semelhante para a maioria das pessoas. Esta ideia é tão profundamente enraizada em várias culturas, que é difícil pensar de forma clara e crítica sobre o assunto. Para muitas pessoas, parece perfeitamente evidente que o bem-estar dos seres humanos tem maior valor e, consequentemente, deve ser dado maior peso nas suas deliberações morais, acima do bem-estar dos animais e plantas. No entanto, quando se busca descobrir razões objetivas que justifiquem esta crença, frequentemente se confronta com uma metafísica obscura e acrítica.
 
Para modificar esta percepção de mundo é preciso que os humanos desenvolvam admiração e respeito ao que é inerentemente valioso na natureza dando origem ao princípio da preservação. O princípio da preservação se refere à não destruição e não interferência no ambiente natural. Esta é a base para uma ética ambiental.
 
Portanto, para que seja possível uma sustentabilidade ambiental genuína é mais pertinente uma visão biocêntrica da natureza. Enquanto se tratar a natureza apenas como um valor utilitário para os humanos, sem considerar seu valor inerente, não haverá sustentabilidade ambiental.
 
A visão antropocêntrica não parece adequada no século XXI e, possivelmente, desde sua primeira enunciação depois da Idade Média, nunca foi. Os estudos sobre uma ética ambiental biocêntrica indicam que esta visão de mundo centrada na superioridade humana é responsável pela degradação do ambiente natural do planeta Terra, ou seja, pela grave crise ambiental que poderá limitar a existência humana, nesta e nas próximas gerações.
 
Diante deste contexto atual: o modo de as pessoas se relacionarem com a biodiversidade parte da visão antropocêntrica, que dirige as ações humanas como superiores às demais formas de vida no planeta, como então impulsionar as atuais mudanças necessárias para o desenvolvimento ambientalmente sustentável perante o desafio de adequar o desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente e a minimização da pobreza?
 
Durante o curso “Princípios do Vestir Consciente” procuramos identificar ações que podem contribuir para impulsionar as mudanças no comportamento do consumidor e o desenvolvimento de produtos com um ciclo de vida mais sustentável ambientalmente.
 
“Sustentabilidade sem o belo é triste, assim como o belo sem sustentabilidade é ignorante” (Fletcher)

 

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[1] Fundadora e presidente do Instituto Ecotece. Assessora do concurso de moda socioambiental Eco Fashion Brasil. Foi responsável pelo lançamento, no Brasil, do vídeo Fibra Ética: Algodão Orgânico, em parceria com a ONG britânica PAN-UK, em 2007. Trabalhou na organização da III Conferência Latino-Americana de Algodão Orgânico em parceria com a ONG Organic Exchange, em 2008. Apresentou o conceito do Vestir Consciente na Conferência Global de Têxteis Orgânicos, na Califórnia em 2007. Foi convidada da Conferência Global de Têxteis Orgânicos em Portugal, em 2008.
 
[2]http://www.ecotece.org.br/
[3] Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, em Estocolmo, em 1972. LEMOS e BARROS 2007, p. 19.
[4] Definição da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, publicado em 1987. LEMOS e BARROS 2007, p. 9.
[5] Idem, p. 9-11.
[6] TAYLOR, 1987
[7] Idem.

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