Um tiro no prato

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Foto: Pixabay

Prezado leitor, o que você almoçou hoje? Na pressa do dia a dia, você parou para pensar na origem dos alimentos que compõem seus pratos cotidianos? Se sim, atrevo-me a informar que você é exceção. Pois bem.

Na semana que passou, o abate de um animal causou comoção estadual. A cena viralizou nas redes sociais e alimentou o bicho da raiva que vive dentro de muitos de nós. Isso porque era um cavalo, bonito, jovem, de olhar dócil. Porém, era um cavalo atropelado, com um dos olhos eviscerados e a pata traseira quebrada pelo acidente. Coitado! E quem disse que lugar de cavalo é em via urbana, dividindo as ruas com caminhões, carros e pedestres? Pois é, lá estava ele quando o acidente ocorreu.

Dizem os jornais (ou as páginas das redes sociais) que logo o veterinário do município foi chamado, e a polícia, acionada, para ajudar a minimizar a confusão, provocada por aquele que caiu “na contramão atrapalhando o tráfego.”

Que fazer numa situação dessas?, devem ter se perguntando ambos. Fato é que o animal não conseguia se mexer e, provavelmente, seria movido dali somente içado, desmaiado ou forçado a andar como um Saci-Pererê, sentindo dor. Muita dor.

Tal como se dá quando as desgraças ocorrem, os curiosos se amontoaram. Tão bonito, diziam uns. Coitado, exclamavam outros. Tem que fazer prótese, engessar, recuperar a perna dele, deve ter pensado a senhorinha apaixonada por animais. Meu Deus, cuide dele, rezou o menino, com os olhos lacrimejantes e arregalados. Um animal estava ferido. Fato.

O veterinário e o policial acordaram entre si o que entenderam como melhor desfecho técnico: na ausência de medicamentos emergenciais para a realização da eutanásia, eles optaram por atirar no animal. Nem tão de perto, nem tão de longe, nem no lugar errado. Era preciso ser preciso, conforme indicavam os manuais estudados por ambos. Lá foram eles, convictos, pôr fim ao sofrimento do cavalo. Foi um tiro certeiro, na testa do animal e na mente dos curiosos e/ou amorosos de prontidão. A partir daí, animal no chão e comoção. Alguém gritou “assassino”. Não sei por que, outro alguém filmou tudo e publicou na internet.

De lá para cá, tenho ouvido rumores de que entendidos discutem a conduta ética, legal e moral dos dois agentes autores. Policial e veterinário estão também no bate-papo dos senhores que caminham sem máscara pelas avenidas. Apontam-lhes os dedos. Aqueles contra o governo aproveitam para falar sobre a liberação das armas. É isso que vai virar o país com os decretos do presidente, dizem.

Quanta movimentação! Não sei muito sobre a conduta dos agentes públicos envolvidos, embora tenha ouvido falar que existam documentos, artigos e notas autorizando a eutanásia por tiros para as situações emergenciais. Também ouvi por aí que o correto era ter sedado o animal antes. Há até os que postaram fotos de animais engessados, recuperados, e foram veementemente contra o ato de matar.

Não cumpre a mim, leiga em assuntos de medicina veterinária, opinar, só clamar para que os fatos sejam apurados e que a loucura e o extremismos dos dias não alterem a verdade. Se bem que nas filosofias aprendi que não existe verdade. Afora as divagações, melhor ir diretamente ao ponto. Ao ponto da carne nos pratos da maioria dos cidadãos que se indignaram com o tiro na testa do cavalo que agonizava atropelado.

A opinião pública ficou chocada como se o fato fosse um crime raro e hediondo. Prezado leitor, todos os dias milhares de bois são mortos a marretadas para que o bife chegue aos supermercados. Todos os dias, porcos são esfaqueados no peito, entre grunhidos, para que o bacon toste os sanduíches. Todos os dias frangos e galinhas são degolados para a dieta saudável de adultos e crianças.

A esta hora, vocês podem estar fazendo um “não” com a cabeça, condenando a minha desinformação sobre o abate humanitário. Lamento informá-los de que estou informada e que essa expressão bonita – humanitário – é o eufemismo que o agronegócio, as leis que o mantêm e a mídia que o protege utilizam para cegar a população.

No agronegócio, uma pancada na testa é o desfecho da vida infeliz dos animais que são criados, massivamente, para serem mortos. Sofre o boi no corredor de abate, sofrem os porcos engordados em baias, sofrem as galinhas, debicadas, com as pernas atrofiadas pelo sobrepeso, mantidas 24 horas sob a luz para não pararem de comer e engordar. Sofre o bezerro macho que é morto ao nascer por não ser de interesse para a indústria leiteira (morto ele, o leite da mãe vai para uma embalagem longa vida, na qual normalmente está estampada a imagem de uma vaca feliz).

Refaço, ao fim, minha pergunta, agora direcionada aos que se indignaram com a morte do cavalo: o que você comeu hoje, moço que chamou o policial de “assassino”? O que você comeu, menino que pediu a Deus pelo pobre animal? E vocês, senhoras e senhores, curiosos ou amorosos que presenciaram a cena ou se ocuparam a discutir sobre ela?

Quisera eu nunca tê-la visto, mas, mais ainda, quero eu que todos saibam que a violência contra animais é corriqueira e não se restringe a cães e gatos que estampam notícias de jornais.

*Pesquisadora em direito animal e autora do livro “Nós e os animais: um convite ao ver”.

Fonte: O Tempo 

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