Artigos, Notícias

As fazendas experimentais das universidades brasileiras e os animais

Fazenda Experimental da Ressacada – UFSC | Foto: EcoAgri

Motivo de orgulho para os profissionais da área de Zootecnia as chamadas Fazendas Experimentais, ligadas a diversas universidades brasileiras, são poderosos centros de produção e legitimação do especismo.

O especismo, segundo o filósofo Richard Ryder, é uma forma de discriminação praticada pelos seres humanos contra outras espécies animais baseada em diferenças moralmente irrelevantes. Em outras palavras, trata-se da crença de que somos superiores aos outros animais, daí decorrendo a falaciosa conclusão de que podemos dispor de suas vidas da forma que melhor nos convier. É interessante salientar que Ryder propôs esse termo em analogia ao racismo e ao sexismo – preconceitos também baseados em aparências externas (e diferenças moralmente irrelevantes!) – que são historicamente usados como pretextos para a não aplicação do princípio ético da igualdade e da consideração de interesses. Todo animal tem pelo menos três interesses básicos: o de não ser aprisionado; o de não ser torturado (mutilado, etc); e o de não ser morto. O respeito a esses três interesses mínimos selaria o fim da pecuária e, consequentemente, da criação de animais (para ensino, pesquisa, etc) em tais fazendas.

Em face de possíveis críticas vindas de partidários do abolicionismo animal, os profissionais que atuam nesses estabelecimentos se escudam no fato de que os locais onde desenvolvem suas práticas são autorizados pelas respectivas instituições, são fiscalizados pelas Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs), e apresentam registro no Cadastro das Instituições de Uso Científico de Animais (CIUCA). Esse cadastro comprovaria, em tese, que há estrutura física adequada e pessoal qualificado para a produção, a manutenção e a utilização de animais para atividades de ensino ou pesquisa científica, as quais só ocorreriam após aprovação pelas CEUAs. Acrescentam ainda que a criação e a utilização de animais em atividades de ensino e pesquisa obedecem aos critérios estabelecidos na Lei nº 11.794/2008 (a famigerada “Lei Arouca”), regulamentada pelo Decreto nº 6.899/2009, resoluções normativas e demais normas complementares publicadas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA). Vale destacar aqui que o mesmo tipo de argumentação procura justificar a existência dos biotérios (locais onde animais são criados e mantidos para que sejam posteriormente utilizados em experimentos), um tema que não abordarei neste texto.

Entretanto, o grande silêncio estrutural que jaz no cerne de tais práticas se encontra nas questões de natureza moral e ética a elas subjacentes: estaria a expressão “comercialização de excedentes” – termo utilizado no comércio de animais produzidos em fazendas experimentais – fazendo jus à natureza senciente e consciente de tais vidas? Na expressão “comercializar excedentes” as duas palavras indicam que tais vidas são classificadas na categoria de coisas, mercadorias, ou objetos passíveis de destinação conveniente para quem se beneficia dessas práticas. Pior, “excedente” significa “sobra”, “resto”, algo já sem valor, imprestável.

O que está em pauta, portanto, não é uma discussão acerca da legalidade de tais atividades que envolvem as vidas de aves e mamíferos como coelhos, bovinos, ovinos, etc. Tampouco se trata de um debate acerca de “maus tratos”, ou de acusações supostamente caluniosas partindo de quem critica ou se opõe à visão de mundo segundo a qual os animais são vistos como recursos.

Em sendo partidária e proponente do abolicionismo animal, tenho a convicção de que os animais não devem servir a nenhum propósito humano, seja como fonte de alimentos, sujeitos de pesquisas, ingredientes de cosméticos/ produtos de limpeza e outros, objetos de entretenimento, ensino, adorno, guarda, práticas religiosas, etc.

Com relação à questão de haver ou não maus tratos, o filósofo Gary Francione nos esclarece que o que está errado – em primeiro lugar – não é o tratamento (bom ou mau) dos animais e sim o uso, em si, de animais. Isso acontece porque eles são seres sencientes e, como destaca o também filósofo Tom Regan, são sujeitos de uma vida. Eventuais maus tratos seriam, por conseguinte, apenas agravantes no já desrespeitoso tratamento de seres sencientes como propriedades ou coisas.

Mas o abolicionismo animal não é amparado apenas por filósofos e juristas. A ciência de ponta é provavelmente seu mais sólido ancoradouro. Em 2012, a área de estudos sobre consciência animal ganhou um grande impulso quando um grupo de prestigiosos neurocientistas afirmou que “evidências convergentes indicam que todos os mamíferos, aves e outras criaturas – como os polvos – possuem os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais” (mais informações na “Declaração de Cambridge sobre Consciência). No que diz respeito aos polvos, por exemplo, recomendo o documentário “My Octopus Teacher”, disponível na Netflix.

Vale adicionar que o reconhecimento da existência de uma vida emocional nos animais sequer é um fato recente. Charles Darwin notou que os mamíferos experimentam ansiedade, pesar/dor, abatimento, desespero, alegria, amor, ternura, devoção, mau humor, amuo, determinação, raiva, ódio, desdém, desprezo, repugnância/aversão, culpa, orgulho, desamparo, paciência, surpresa, perplexidade, medo, horror, vergonha, timidez e modéstia (1).

No que tange à nutrição humana, também existem estudos robustos que asseveram a viabilidade e o excelente desempenho das dietas vegetarianas estritas (2) – isto é, sem nenhum ingrediente de origem animal – em todas as fases da vida.

Por conseguinte, embora essa e outras práticas possam ser legais, isso não as valida ética ou moralmente. Não precisamos da produção, uso, e destruição dessas vidas para alcançarmos uma boa saúde ou uma qualidade de vida satisfatória.

É impossível não mencionar também que, hoje, 96% da biomassa de mamíferos terrestres é composta por humanos e seus animais de criação, restando apenas 4% de vida selvagem (3). É inequívoco, portanto, o gigantesco impacto deletério da pecuária sobre a biodiversidade. Além disso, há inúmeras outras consequências catastróficas desse setor produtivo sobre a sustentabilidade ambiental – como o surgimento de pandemais (4) – todas fartamente documentadas em vários relatórios da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), por exemplo.

Acredito firmemente no potencial de nossas universidades para realizar ensino, pesquisa, e extensão de forma a honrar as evidências científicas do milênio em curso, em vez de perpetuar práticas anacrônicas e não condizentes com a condição de vulnerabilidade ao sofrimento de seres sencientes, ainda que haja amparo legal para tanto.

Todavia, uma mudança nesse sentido começa pelo ensino. A educação poderia alavancar uma revolução de proporções inimagináveis disseminando paradigmas genuinamente sustentáveis, bem como a tese do abolicionismo animal. O problema é que as escolas e os meios de comunicação de massas desempenham um papel importante na reprodução e legitimação da visão de mundo dominante que, entre outros problemas, é franca e abertamente especista. Basta contemplar a total sem-cerimônia com que os cientistas se referem ao uso de animais em suas pesquisas, seja em suas salas de aula, seja em suas entrevistas nas grandes redes de TV como, agora, na onda de combate à Covid-19. Entre essas vítimas da ciência estão sobretudo mamíferos como primatas, suínos, ratos e camundongos – todos listados na Declaração de Cambridge sobre Consciência citada antes.

Nossas universidades promovem o especismo em praticamente todas as áreas do conhecimento. Mas talvez o campo mais representativo seja exatamente o da Zootecnia que é a arte, a ciência, a tecnologia, e as práticas de manejo, manutenção e “melhoramento” dos animais por meio da criação, nutrição, manipulação genética, etc. Nesse contexto, estudos em áreas como nutrição e medicina preventiva (cuidados veterinários) visam não o valor intrínseco da saúde dos animais, mas tão somente seu valor instrumental, como futuros produtos ou commodities. Seu sofrimento é algo abstrato, ou sem sentido no interminável processo de transformação de vidas em mercadorias. Jeffrey Masson (5) argumenta que a domesticação de animais trouxe à tona uma crueldade que existia de forma latente nos humanos. Embora a domesticação de animais tenha pelo menos 10.000 anos foi apenas recentemente, historicamente falando, que essa parte senciente da biosfera se transformou em mercadoria. (Brügger, 2020, p.45-46).

Por fim, penso que no que diz respeito a novas pandemias e outros riscos sanitários, nossas universidades e a maioria dos cientistas não estão fazendo seu dever de casa devidamente. Investe-se conhecimento, tempo, e recursos financeiros sobretudo em vacinas e tratamentos – o que de fato é necessário – porém quase nada vejo em termos de conscientização sobre como prevenir novos desastres. A continuar nossa relação de supremacia antropocêntrica e especista para com a natureza e sua parte senciente – os outros animais que dividem conosco o planeta – a questão não é “se”, mas “quando” teremos o próximo “pandemônio”.

Notas:

1 – Veja Bekoff, M. The emotional lives of animals: a leading scientist explores animal joy, sorrow, and empathy – and why they matter. Novato, CA: New World Library, 2007.

2- Craig, W. and Mangles, A. 2009. Position of the American dietetic association: vegetarian diets, Journal of the American Dietetic Association, 109(7), 1266–1282.

3- Bar-On, Y., Phillips, R. and Milo, R. 2018. The biomass distribution on Earth. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(25), 6506–6511.

4 – Cerca de 70% das novas doenças humanas que surgiram nas últimas décadas são de origem animal e estão relacionadas com à busca por mais alimentos de origem animal. Isso inclui os novos vírus da influenza (H5N1, H1N1 e H3N2v), da imunodeficiência humana 1 (HIV-1), da encefalopatia espongiforme bovina (BSE, comumente conhecida como doença da vaca louca), da síndrome respiratória grave aguda (SARS), do Ebola e muitos outros riscos veterinários para a saúde pública. Outra grande preocupação é o uso de antibióticos para prevenir doenças em fazendas industriais e a sua ampla liberação não intencional no meio ambiente através de esgotos provenientes de dejetos animais e escoamento de água de sítios agrícolas, criando/disseminando resistência antimicrobiana (Brügger, 2020, p.54).

5 – Masson, J.M. 2014. Beasts – What animals can teach us about the origins of good and evil, NewYork, NY, Bloomsbury.

Brügger, Paula. Animals and Nature: The Co-modification of the Sentient Biosphere. In The Capitalist Commodification of Animals, Brett Clark and Tamar Diana Wilson, (eds.) (Emerald Publishing Limited.2020)33-58.

.

​Read More
Artigos, Notícias

Um tiro no prato

Foto: Pixabay

Prezado leitor, o que você almoçou hoje? Na pressa do dia a dia, você parou para pensar na origem dos alimentos que compõem seus pratos cotidianos? Se sim, atrevo-me a informar que você é exceção. Pois bem.

Na semana que passou, o abate de um animal causou comoção estadual. A cena viralizou nas redes sociais e alimentou o bicho da raiva que vive dentro de muitos de nós. Isso porque era um cavalo, bonito, jovem, de olhar dócil. Porém, era um cavalo atropelado, com um dos olhos eviscerados e a pata traseira quebrada pelo acidente. Coitado! E quem disse que lugar de cavalo é em via urbana, dividindo as ruas com caminhões, carros e pedestres? Pois é, lá estava ele quando o acidente ocorreu.

Dizem os jornais (ou as páginas das redes sociais) que logo o veterinário do município foi chamado, e a polícia, acionada, para ajudar a minimizar a confusão, provocada por aquele que caiu “na contramão atrapalhando o tráfego.”

Que fazer numa situação dessas?, devem ter se perguntando ambos. Fato é que o animal não conseguia se mexer e, provavelmente, seria movido dali somente içado, desmaiado ou forçado a andar como um Saci-Pererê, sentindo dor. Muita dor.

Tal como se dá quando as desgraças ocorrem, os curiosos se amontoaram. Tão bonito, diziam uns. Coitado, exclamavam outros. Tem que fazer prótese, engessar, recuperar a perna dele, deve ter pensado a senhorinha apaixonada por animais. Meu Deus, cuide dele, rezou o menino, com os olhos lacrimejantes e arregalados. Um animal estava ferido. Fato.

O veterinário e o policial acordaram entre si o que entenderam como melhor desfecho técnico: na ausência de medicamentos emergenciais para a realização da eutanásia, eles optaram por atirar no animal. Nem tão de perto, nem tão de longe, nem no lugar errado. Era preciso ser preciso, conforme indicavam os manuais estudados por ambos. Lá foram eles, convictos, pôr fim ao sofrimento do cavalo. Foi um tiro certeiro, na testa do animal e na mente dos curiosos e/ou amorosos de prontidão. A partir daí, animal no chão e comoção. Alguém gritou “assassino”. Não sei por que, outro alguém filmou tudo e publicou na internet.

De lá para cá, tenho ouvido rumores de que entendidos discutem a conduta ética, legal e moral dos dois agentes autores. Policial e veterinário estão também no bate-papo dos senhores que caminham sem máscara pelas avenidas. Apontam-lhes os dedos. Aqueles contra o governo aproveitam para falar sobre a liberação das armas. É isso que vai virar o país com os decretos do presidente, dizem.

Quanta movimentação! Não sei muito sobre a conduta dos agentes públicos envolvidos, embora tenha ouvido falar que existam documentos, artigos e notas autorizando a eutanásia por tiros para as situações emergenciais. Também ouvi por aí que o correto era ter sedado o animal antes. Há até os que postaram fotos de animais engessados, recuperados, e foram veementemente contra o ato de matar.

Não cumpre a mim, leiga em assuntos de medicina veterinária, opinar, só clamar para que os fatos sejam apurados e que a loucura e o extremismos dos dias não alterem a verdade. Se bem que nas filosofias aprendi que não existe verdade. Afora as divagações, melhor ir diretamente ao ponto. Ao ponto da carne nos pratos da maioria dos cidadãos que se indignaram com o tiro na testa do cavalo que agonizava atropelado.

A opinião pública ficou chocada como se o fato fosse um crime raro e hediondo. Prezado leitor, todos os dias milhares de bois são mortos a marretadas para que o bife chegue aos supermercados. Todos os dias, porcos são esfaqueados no peito, entre grunhidos, para que o bacon toste os sanduíches. Todos os dias frangos e galinhas são degolados para a dieta saudável de adultos e crianças.

A esta hora, vocês podem estar fazendo um “não” com a cabeça, condenando a minha desinformação sobre o abate humanitário. Lamento informá-los de que estou informada e que essa expressão bonita – humanitário – é o eufemismo que o agronegócio, as leis que o mantêm e a mídia que o protege utilizam para cegar a população.

No agronegócio, uma pancada na testa é o desfecho da vida infeliz dos animais que são criados, massivamente, para serem mortos. Sofre o boi no corredor de abate, sofrem os porcos engordados em baias, sofrem as galinhas, debicadas, com as pernas atrofiadas pelo sobrepeso, mantidas 24 horas sob a luz para não pararem de comer e engordar. Sofre o bezerro macho que é morto ao nascer por não ser de interesse para a indústria leiteira (morto ele, o leite da mãe vai para uma embalagem longa vida, na qual normalmente está estampada a imagem de uma vaca feliz).

Refaço, ao fim, minha pergunta, agora direcionada aos que se indignaram com a morte do cavalo: o que você comeu hoje, moço que chamou o policial de “assassino”? O que você comeu, menino que pediu a Deus pelo pobre animal? E vocês, senhoras e senhores, curiosos ou amorosos que presenciaram a cena ou se ocuparam a discutir sobre ela?

Quisera eu nunca tê-la visto, mas, mais ainda, quero eu que todos saibam que a violência contra animais é corriqueira e não se restringe a cães e gatos que estampam notícias de jornais.

*Pesquisadora em direito animal e autora do livro “Nós e os animais: um convite ao ver”.

Fonte: O Tempo 

​Read More
Artigos, Notícias

Ministério tenta liberar a caça de botos, peixes-bois e tartarugas

Foto: Pixabay

A gana pela liberação da caça no Brasil não cessa. Talvez a miopia histórica que aflora na política também tenha sua vertente ambiental em um povo que pouco estuda sua própria história. Não ter memória, não ter história, nos condena a repetir os erros do passado. A Lei nº 5.197/1967 foi editada visando frear o massacre à biodiversidade nacional que ocorria pela caça, inclusive a caça comercial.

De 1967 para os dias atuais, tivemos em 1998 a edição da Lei nº 9.605 que consolidou em seu texto os dispositivos que tipificam os crimes ambientais. Ela também solucionou uma antiga piada sobre o jacaré. Quem cuida do jacaré? Se estiver na terra era do IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, mas se estiver na água seria de responsabilidade da Sudepe – Superintendência do Desenvolvimento da Pesca. Ambas as instituições, embora não apenas elas, se uniram para formar o Ibama em 1989 e o jacaré passou a ser de responsabilidade desse órgão, independentemente de estar na água ou na terra – mais lógico, né?

A solução da Lei nº 9.605/1998 para esse tipo de problema foi estabelecer uma distinção entre recurso pesqueiro e o restante da fauna. De acordo com o artigo 36, os peixes, crustáceos (lagosta e camarão, por exemplo) e moluscos aquáticos (polvo, lula, mexilhão), além dos vegetais hidróbios (que vivem na água), seriam recursos pesqueiros, excetuadas as espécies ameaçadas de extinção.

“Artigo 36 – Para os efeitos desta Lei, considera-se pesca todo ato tendente a retirar, extrair, coletar, apanhar, apreender ou capturar espécimes dos grupos dos peixes, crustáceos, moluscos e vegetais hidróbios, suscetíveis ou não de aproveitamento econômico, ressalvadas as espécies ameaçadas de extinção, constantes nas listas oficiais da fauna e da flora.”

Essa distinção é importante em razão do diferente grau de proteção, no ordenamento jurídico brasileiro, dispensado a cada um dos dois grupos de animais. Em um entendimento simples: você pode pescar (desde que na época, com os petrechos e espécies permitidos), mas não poderá caçar (a menos que tenha autorização específica, como para a caça científica). Assim, tornar todos os animais aquáticos como espécies sujeitas à pesca, na prática, significa liberar a caça de todos eles.

Principalmente a partir da liberação da caça de javalis – que é ou deveria ser uma caça de controle –, os projetos de lei visando a liberação da caça no Brasil têm sido mais frequentes que antes. No entanto, quase a totalidade da população brasileira é contra a caça. Segundo o Ibope, a rejeição à liberação da caça é de 95% entre mulheres e de 90% entre os homens. Nos grandes centros urbanos (capitais e periferias), a rejeição é de 95%, enquanto nas cidades do interior, 91%. Caso a análise seja por região, 94% dos moradores do Sudeste são contra, seguidos por 93% no Sul, 92% no Norte e Centro-Oeste, e 91% no Nordeste.

Dessa forma, os Congressistas que apresentam projetos de lei de liberação à caça no Brasil estão contra a sociedade brasileira. Não obstante, o grupo minoritário favorável à caça permanece ativo e no propósito de poderem se divertir mediante o sofrimento dos animais. A última investida pela liberação da caça reside na tentativa de transformar a todos os animais aquáticos em passíveis de serem pescados. Caso esse intento obtenha sucesso, animais como jacarés, botos, tartarugas-marinhas, tracajás e até peixes-boi ou baleias poderão ser tratados como hoje o são os peixes. Ou seja, poderão ser capturados e vendidos. Na prática, serão caçados. Não que os peixes não mereçam melhor proteção. Eles merecem. Mas ao invés de protegê-los, estamos estendendo a outros animais a forma absurda como exploramos os peixes, crustáceos e moluscos. Os rios e oceano estão se tornando um deserto – apenas não percebemos por que os peixes morrem em silêncio e a destruição é invisível, pois ocorre debaixo d´água.

Portaria nº 53/2021 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), de forma insidiosa, tenta liberar a caça no Brasil ao propor que todos os animais aquáticos usados na alimentação humana sejam tratados como recurso pesqueiro. Na prática, pescaríamos jacarés, botos, tartarugas-marinhas, baleias, entre quaisquer outros animais aquáticos que pudessem ser comidos.

Portaria nº 53, de 23 de março de 2021, que está em consulta pública durante 30 dias a partir de sua publicação.

“Minuta de Instrução Normativa

(…) Artigo 2º – Para fins desta Instrução Normativa, consideram-se:

I – aquicultura familiar: quando praticada por unidade unifamiliar, nos termos da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006;
II – pescado: os peixes, os crustáceos, os moluscos, os anfíbios, os répteis, os equinodermos e outros animais aquáticos usados na alimentação humana;”
 (…) – grifo nosso

Inicialmente, como pode ser observado, enquanto a lei limita a pesca aos peixes, crustáceos e moluscos, a Portaria nº 53/2021 a estende a todos os animais. Ou seja, a portaria extrapola o previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998). Mas não contraria apenas a ela: a Lei nº 5.197/1967 também é afrontada, pois em seu artigo 2º está proibida a caça profissional que se define pelo comércio do espécime ou parte do espécime caçado.

Entrando em vigência essa nova normativa do MAPA, enquanto desfruta de um dia na praia, você e sua família terão o desprazer de ver uma tartaruga arpoada no pescoço, se afogando em seu sangue, ser arrastada para areia para ser comercializada. No mercado, encontrarão carne de jacaré, de boto-vermelho e cinza ao lado da carne de peixe-boi e, em determinada época do ano, também de baleia. Tudo perfeitamente legal e autorizado pela normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que hoje define as regras de pesca no Brasil sem a participação de instituições ambientais. Observe que os animais aquáticos caçados, me desculpem, “pescados” serão comercializados livremente.

Outra questão interessante da normativa se refere ao fato de citarem especificamente equinodermos. Equinodermos é um grupo de animal do qual fazem parte a estrela-do-mar, o ouriço-do-mar, o pepino-do-mar, entre outros. São todos animais marinhos. Como você deve ter percebido, não fazem parte do cardápio dos brasileiros. Então por que o MAPA edita uma normativa citando-os especificamente? Porque os pepinos-do-mar, por exemplo, são uma iguaria degustada em países asiáticos e o Brasil já combate a caça, a matança e tráfico desses animais para lá. Afinal, na balança entre destruir nossa biodiversidade aquática e as papilas gustativas de endinheirados asiáticos prevaleceu a ética, a moral e a biodiversidade nacional. Porém, caso a aberrante normativa seja aprovada, os pepinos-do-mar poderão ser caçados, desculpem, “pescados” para abastecerem finos pratos do outro lado do mundo. Ah! Por que querem os pepinos-do-mar brasileiros? Por que eles são mais saborosos? Não, porque os animais são raros ou já foram eliminados em vários locais de seus próprios mares.

Essa é apenas mais uma tentativa de caçar os animais silvestres no Brasil. Não é a primeira e nem será a última. Para se manifestar contra ela, acesse o e-mail artesanal.cgpa@agricultura.gov.br e mande sua contribuição, sua proposta de acordo com o padrão disposto no artigo 3º da Portaria nº 53/2021.

“Artigo 2° – A presente consulta pública intenciona permitir a ampla divulgação da proposta de Instrução Normativa, em anexo, de forma a possibilitar a manifestação de órgãos, entidades representativas, pessoas físicas e jurídicas interessadas no tema.

Artigo 3°- A manifestação de que trata o artigo 2° desta Portaria deve ser apresentada no formato de planilha editável, conforme exemplo abaixo, devendo ser enviada para o e-mail: artesanal.cgpa@agricultura.gov.br.”

O texto reflete posição pessoal e não, necessariamente, institucional.

Fonte: Fauna News 

​Read More
Artigos, Notícias

Licença para ser livre!

Foto: Sebastião Salgado – Kuwait – 1991

A primeira prova que temos da domesticação de cavalos é do ano 4.000 a.C., na Ucrânia, segundo Jared Diamond no seu livro Armas, Germes e Aço. Em seu estudo, ele diz que, de todas as espécies de animais existentes acima de 37 quilos, somente 14 se mostraram aderentes à domesticação e, destas, somente cinco se espalharam e passaram a ser utilizadas em todo o mundo. São elas: a vaca, a ovelha, a cabra, o porco e o cavalo. O que esses animais têm em comum? As características sociais, tais como: vivem em rebanhos; ocupam a mesma pastagem; têm uma ordem estereotipada; e mantêm uma hierarquia de dominação bem desenvolvida, que foi assumida pelos humanos. Ser domesticado significou perder a liberdade e ter a procriação e alimentação controladas. Uma vida particularmente difícil, não exatamente pelo “modo como eles morrem, mas, acima de tudo, o modo como eles vivem”, como diz  Yuval Noah Harari no seu livro Sapiens.

No momento, irei me deter na figura do cavalo. Pela sua forte estrutura e agilidade, foi exaustivamente utilizado, exaurido ao máximo de suas forças. Cavalos estão presentes ao longo do livro Guerra e Paz, de Leon Tolstói. Mesmo sendo coadjuvantes da história, não passam despercebidos em cenas dramáticas, quando “por toda a parte havia cadáveres de cavalos e de homens, em variado estado de decomposição (página 1290 – Capítulo XIII). Foi decisivo no campo e como meio de transporte. Impressionante o relato de Andrea Wulf, no livro A invenção da Natureza, quando narra a última viagem do naturalista alemão Alexander Von Humbold, em 1829. Com um comboio de três carruagens, Humbold “percorreu 16.093 quilômetros em menos de seis meses, passando por 658 postos de correio, e usando 12.244 cavalos”.

Estamos no ano 2021. As guerras não são mais com cavalarias. Não viajamos mais a cavalo. Desde a década de 60, a população brasileira é urbana. Nossas cidades são áridas, ruidosas, cimentadas e sem arborização. Nesses centros urbanos, não há mais áreas de pastagens, com sombra e água. Quando velhos, cavalos se tornam incapazes para puxar a carga. Para onde vão? Quem irá cuidar? Afinal, estamos falando de um mamífero de, em média, 500 quilos, que demanda espaço e dinheiro para acessar um veterinário, comprar remédios e se ocupar em alimentá-lo diariamente. São inúmeros os casos dos “descartados”, quando perdem a utilidade. São resgatados, muitas vezes, desorientados, doentes, feridos e esfomeados. A fatura tem caído no colo de voluntários, socorristas ou de ONGs que, sem estrutura e recursos, estão na linha da frente atuando no resgate.

Esse problema tem um forte apelo social, devido a sua interface com aquele que guia a carroça: o carroceiro, que ainda depende do cavalo para a sua sobrevivência. Alguns grandes centros urbanos, felizmente, já legislaram no sentido de realizar a substituição gradual das carroças para veículos de tração motorizada. O importante é que as alternativas para a solução do problema, sejam dignas, humanitárias e justas com os carroceiros e com os cavalos.

A humanidade, tardiamente, se desculpou diante de muitas atrocidades do passado e que hoje nos envergonham. Pelo reconhecimento a todo o bem que a humanidade, até agora, usufruiu à custa dos cavalos, chegou a hora de dar a eles a licença para que sejam livres e abolir, definitivamente, essa exploração do nosso meio. Quero acreditar que, se fomos capazes da proeza de levar para Marte o robô Perseverance da NASA, após quase sete meses de viagem, teremos também a capacidade de dar uma resposta adequada a esse quadro que envolve a miséria do carroceiro e o sofrimento e escravidão do animal. Que possamos escolher a via do diálogo, da libertação, da compaixão e da responsabilidade social.

 

​Read More
Artigos, Notícias, Sem categoria

Se podemos cultivar carne sem crueldade em um laboratório, o que há para reclamar?

Foto: Pixabay

Com o desenvolvimento da carne cultivada em laboratório, os vegetarianos e veganos precisam se perguntar: ainda é sobre bem-estar animal ou é sobre parar de comer carne?

A carne cultivada, produzida em biorreatores a partir de células musculares retiradas de animais vivos, foi aprovada pela primeira vez por uma autoridade reguladora. “Chicken bites” (“petiscos de frango”), da startup Eat Just, de São Francisco, foi aprovado para venda pela Singapore Food Agency.

É um momento marcante que pode levar a uma revolução na carne “gentil e limpa”, reduzindo significativamente a produção pecuária industrial, potencialmente eliminando-a por completo. Também poderia ser muito mais ecológico, com 96% menos emissões de gases de efeito estufa e 99% menos uso da terra, evitando a contaminação bacteriana de dejetos animais e overdose de hormônios e antibióticos industriais. Agora, várias empresas, incluindo grandes produtores de carne, estão desenvolvendo carne de laboratório, adquirindo regulamentação global e convencendo o público.

Isso é alucinante. Basta pensar: a possibilidade de não haver mais fazendas industriais ou matadouros. É o começo, e as principais preocupações precisam ser abordadas: despesas, qualidade, transparência de metodologia e produção, regulamentação mundial, acalmar a ansiedade do consumidor sobre segurança e muito mais. Mas não preferimos abordar essas questões? Como vegetariana, eu não comeria carne de laboratório, mas adoro a ideia de que outras pessoas possam consumir carne segura e sem crueldade com a consciência limpa. Se os animais não estão sofrendo, se o meio ambiente se beneficia, não há problema… Certo?

Alguns discordam, argumentando que a carne de laboratório perpetua a fixação com o consumo de carne e que o foco deve ser em dietas à base de vegetais. Eles também estão preocupados com a participação dos produtores de carne, o que não faz sentido. Se houver regulamentação adequada, certamente será uma grande vantagem para os produtores de carne estarem envolvidos? O objetivo, com certeza, é parar o sofrimento e a destruição, e não os lucros. Talvez pelo menos parte da oposição à carne cultivada em laboratório esteja enraizada na identidade, uma necessidade “ética” beirando a exigência de que as pessoas se juntem a elas para achar o consumo de carne repugnante, e que talvez todos devam ter como objetivo ser vegano, ou pelo menos vegetariano. Exceto que isso nunca vai acontecer.

Embora tenha havido um surto de interesse por produtos sem carne, muitas pessoas ainda querem comer carne. E, francamente, se é livre de crueldade e ecologicamente correto, por que não deveriam?

Talvez seja hora de verificar as prioridades. Ainda é sobre bem-estar animal e meio ambiente, ou tornou-se uma questão de controlar o que as pessoas comem? Algo linha dura e ditatorial se instalou? A ironia é que foram esses tipos muito “éticos” que quase sozinhos impulsionaram a busca por opções viáveis de mercado de massa e sem crueldade. Isso é efetivamente o que eles queriam… E eles conseguiram! Então, é claro, ainda faça perguntas, mas também regozije-se, coopere no que poderia se tornar uma mudança no jogo global. Vamos, veganos, levem a vitória!

Sinto muito, estou passando muito tempo com entregadores

Nestes tempos de mudança, nossos relacionamentos com os motoristas de entrega estão se tornando mais pessoais e intensos? Não se assuste, este não é um argumento de roteiro pornográfico (título possível: o moço da entrega sempre bate duas vezes).

Uma pesquisa da “Which?” relata que até duas em cada três pessoas têm problemas com entregas. Pacotes lançados sobre sua parede. Pacotes lançados sobre a parede de outras pessoas. Assinaturas falsas. Faltam itens. “Lugares seguros” ignorados e pacotes deixados à vista de todos na porta. Cartões que insistem que você “perdeu a entrega” quando definitivamente estava em casa, fazendo você se sentir como se estivesse em um thriller de Hitchcock.

No período que antecede o Natal, especialmente neste ano com mais pessoas comprando online, às vezes pode parecer que o faroeste selvagem está sendo reencenado com vans e bicicletas de correio. Claro que não. A maioria dos motoristas de entrega, homens e mulheres, faz um ótimo trabalho, mantendo-se profissionais e amigáveis, apesar de serem sobrecarregados e mal pagos. Ainda assim, é interessante como, conforme a rua se desintegra, ela está se reformando como um tráfego implacável em ruas residenciais. Nem é totalmente impessoal. Enquanto o pessoal flutua, os mesmos rostos tendem a reaparecer nas rodadas.

Recentemente, sinto que tenho visto certos motoristas com mais frequência do que membros da minha própria família. Formei opiniões sobre eles: “Que bom, ele nunca atira pacotes nas poças.” Assim como eles provavelmente formaram alguns sobre mim: “Caramba, ela de novo, ela nunca para de gastar?”.

O tempo era, você sempre veria os mesmos leiteiros, lixeiros ou carteiros. Eles eram tão fixos na vida britânica que as crianças gostariam de crescer para se tornarem eles. Agora, para a maioria das pessoas, provavelmente são os motoristas de entrega que eles mais veem e uma nova subcultura está se formando. Não é de se admirar que as relações ocasionalmente se desgastam ou se tornam totalmente disfuncionais. Podemos estar nos vendo muito.

Você não precisa amar Thatcher para acreditar que ela merece uma estátua

Eu não suportava Margaret Thatcher, mas ela merece uma estátua em sua cidade natal? Claro que sim.

Os planos para erguer a estátua de Douglas Jennings de Lady Thatcher em Grantham, Lincolnshire, encontraram mais oposição, com foco no custo da cerimônia de inauguração. É muito dinheiro (£ 100.000), especialmente quando as pessoas estão lutando durante a pandemia. Embora seja esperado que a revelação seja financiada por doações privadas, ela será
subscrita pelo conselho. No entanto, não se trata apenas de dinheiro. Trata-se de Thatcher ser uma figura divisora.

No que foi descrito como um “mini Brexit” (saída do Reino Unido da União Européia), houve chamadas online para que a estátua fosse bombardeada com ovos. Não é bastante patético? Não há como negar que Thatcher era divisiva, mas ela era muitas outras coisas também, não menos importante, a primeira primeira-ministra e uma das líderes britânicas mais memoráveis de todos os tempos.

Foi interessante, recentemente, como fãs e detratores ficaram irritados com o retrato abertamente educado de Thatcher em “The Crown”, de Gillian Anderson. Mesmo aqueles de nós sem tempo para Thatcher pensaram que era injusto
reduzi-la a uma caricatura.

Ame-a ou odeie-a, como Primeira Ministra, Thatcher dominou o cenário nacional e internacional.

As tentativas de diminuir suas realizações, como se opor à estátua de Grantham, parecem mesquinhas e ridículas.

*Barbara Ellen é colunista do “Observer”

​Read More
Artigos, Notícias

Touradas: covardia e sadismo elevados à categoria de arte e tradição

Foto: Reprodução | Vímeo

Hoje, revendo o debate sobre as touradas entre o filósofo galego Oscar Horta e o filósofo espanhol Fernando Savater (por quem, um dia, eu nutri certa consideração), fiquei realmente impressionada com os argumentos usados, pelo segundo, em favor desta cruel tradição. O debate já tem sete anos, mas é de uma atualidade absoluta e, mesmo contra todo o esforço de Savater para defender este espetáculo dantesco (que, sinceramente, só pode ser do gosto de pessoas que, há tempos, perderam qualquer mínima sensibilidade ou empatia com o sofrimento alheio ou, simplesmente, nunca as tiveram), a verdade é que o público das touradas na Espanha vem caindo consideravelmente nos últimos dez anos, chegando, nos últimos tempos, à metade do que era.

É claro que isso quer dizer alguma coisa, sobretudo, que não foi em vão o embate teórico de Horta, um crítico reconhecido do especismo com o mais do que convicto especista Savater (que não deixou, é claro, de fazer uso de todos os lugares-comuns para defender o indefensável: que podemos, sim, dispor de todas as vidas animais, sem qualquer pudor, simplesmente porque os animais não têm direito algum, ou porque simplesmente “a ética e a moral foram feitas pela nossa espécie e para servir a nossa espécie”, disse mais ou menos assim o filósofo defensor desta dita “arte” sanguinária). De fato, a moral e a ética são mesmo uma invenção nossa, e não uma condescendência divina, de modo que também se pode deduzir daí, e com ainda mais convicção, que também nós não temos, na realidade, qualquer direito real a nada (inclusive o direito de explorar e escravizar todas as espécies do mundo; se o fazemos, é por pura tirania).

Sim, o direito é uma invenção humana, tanto quanto a moral e a ética, mas será que, por esta razão, eles só são aplicáveis a nós, humanos, ou dizem respeito às nossas ações em geral? Como fica, por exemplo, a nossa relação com o meio que nos cerca e, sobretudo, com os outros animais que partilham conosco este mundo e também a mesma “mortalidade”. Refiro-me “a mesma mortalidade” para expandir um pouco mais a ideia de Savater, que coloca a humanidade irmanada em sua mortalidade, como se os animais estivessem fora deste ciclo de vida e morte. Claramente, há neste discurso algo de bem agostiniano e hedeggeriano que subjaz nas considerações sobre as diferenças entre nós e os animais – algo inconfessadamente teológico, apesar de Savater alegar que são as religiões, e não a moral, que pensam estas irmandades entre humanos e não humanos. Mas aqui trata-se também de mais uma falácia, pois só pouquíssimas religiões realmente consideram os animais como seres dignos de respeito; a maior parte delas se apresenta, ao contrário, como uma “boa” fonte do próprio especismo.

Foto: Reprodução | Internet

Em tudo e por tudo, a questão é: se um homem abusa de um outro animal (sim, somos também animais, por mais que alguns insistam em fingir que não), o espanca, o maltrata, o mata impiedosamente, e com requintes de crueldade, este homem não cometeu nenhum mal apenas porque este outro pertence a outra espécie, é isso mesmo que Savater quer dizer? Nossos atos abusivos só dizem respeito aos humanos? Só eles são dignos de consideração, compaixão ou empatia? Então quando se violentam outras vidas, quando se roubam delas sua liberdade ou a tratam como objetos, mesmo sabendo que elas sofrem, e muito, não se está sendo abusivo, é isso?

Sim, o abuso é algo que diz respeito apenas aos humanos (que foi para quem a moral foi criada), é o que nos deixa claro o filósofo espanhol. Mas é sobre os humanos mesmo que estamos falando; é isso que Horta busca mostrar, em todo o debate, quando fala de um ser moral, de um ser ético, entre uma fala arrogante e outra de Savater (típicas de quem está amparado em séculos de ideias e valores irrefletidos) e os sorrisos mal disfarçados do mediador que claramente simpatizava mais com o defensor das touradas, ou, eu diria, defensor de qualquer forma de exploração e aviltamento dos animais, já que, segundo Savater, eles não são dignos desta consideração. Simplesmente não são, e ponto. Afinal, Deus fez o mundo assim! Esta parte eu mesma acrescentei, porque é o que resta quando as ideias são defendidas sem problematização, sem críticas, sem reflexões maiores.

Sendo bem direta, para os que não pensam muito ou que têm, igualmente, uma moral bem limitada (e por moral limitada eu quero dizer uma moral bem parcial; “só se pode chamar de mal o que fazemos com seres semelhantes a nós”), talvez Savater lhes sirva bem. Mas para quem pensa e sabe que o que faz de nós seres morais é exatamente ter a consciência de que não devemos fazer mal aos outros, a qualquer outro, que não devemos nos beneficiar com o sofrimento alheio, etc., é difícil explicar, diria aqui Schopenhauer, como isso não se estenderia também aos animais, já que eles também sofrem como nós. Mas parece que até isso Savater deseja roubar do animal, o fato de ele ser também um outro; e, mais ainda, um outro de nós mesmos, pois, como animais, pertencemos todos a um mesmo Reino. Não somos outra coisa; não somos de outra cepa. Somos seres naturais, somos animais, somos mortais. Tudo isso já nos coloca em uma mesma comunidade, goste disso ou não o filósofo espanhol.

Foto: Reprodução | Internet

Se um homem não sente nada diante do sofrimento que ele próprio está causando a um outro animal, no caso aqui, o touro, e isso meramente por diversão ou por uma tradição evidentemente sádica (já que extrai prazer do sofrimento de outrem), pode-se mesmo defini-lo como um ser verdadeiramente moral? Savater acha que sim, já que, para ele, repetimos, os animais não merecem qualquer consideração desta natureza. Mas a pergunta é: aquele que maltrata um ser senciente, um ser que sofre e que tem consciência deste sofrimento (e, sim, ignóbil Descartes, não há mais como fingir que não!) só por prazer e distração, pode ser considerado um bom ser humano? Schopenhauer diz que não; e eu também.

Enfim, o filósofo da Galícia, Oscar Horta está de parabéns por este enfrentamento corajoso e, segundo penso, vitorioso (há sete anos e ainda hoje), mesmo que, para os mais desavisados e preguiçosos no que tange ao pensamento, Fernando Savater pareça trazer argumentos bem sólidos. Ele parece trazer argumentos sólidos exatamente porque fala do alto de uma moral de ideias prontas e repetidas há séculos, que, aliás, não conseguiu, em nenhum momento, dar certo para os próprios seres humanos, exatamente porque existe um nó difícil de desatar. O nó é o corte metafísico-religioso que se fez no seio do ser, e que criou a falsa ideia de que temos uma natureza diversa da natureza. Enquanto não enfrentarmos esta última fronteira, que nos arrancou da imanência da vida, ainda traremos em nós a famigerada hierarquia dos seres, que continuará impedindo a própria humanidade de atingir sua maioridade, ou seja, de pôr em prática uma verdadeira ética da vida, onde não existiriam mais seres superiores e inferiores, mas apenas e tão somente vidas; vidas que se entrelaçam, que se encontram e também se desencontram, no eterno devir do mundo.

Debate Oscar Horta Vs Fernando Savater from PACMA TV on Vimeo.

*Filósofa, historiadora e, atualmente, ocupa o cargo de Professora Adjunta do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ. É autora dos livros Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade (Contraponto) – finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Sociais –, Matéria em movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno (Martins Fontes) e Dicionário filosófico (Martins Fontes). É tradutora de diversas obras de filosofia e ciências humanas e, durante anos, foi resenhista de livros em jornais e revistas de grande circulação do país. No âmbito da causa animal, é fundadora do NEDA (Núcleo de Estudos de Direitos Animais), o primeiro grupo de estudos voltado para esta reflexão na Filosofia da UERJ. Atua, ocasionalmente, como colunista da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), é vegana e defensora do abolicionismo como o primeiro passo na luta contra a tirania humana. Na área da proteção animal, tem um trabalho independente e, por vezes, em parceria com outros protetores, retirando cães e gatos do abandono das ruas para fins de adoção (tendo ela própria adotado vários deles). Publicou recentemente os livros “A alegria, a verdadeira resistência” e “As origens da opressão: a escravidão humana e animal” pela editora Confraria do Vento.

 

​Read More
Artigos, Notícias

Veganismo é uma religião?

Divulgação

Certo dia, ouvi a seguinte frase: veganismo é quase como uma religião.

Não tenho nenhuma religião, mas fiquei pensativa. Será que algumas pessoas pensam assim? Me preocupei. E parei para refletir.

Religião e espiritualidade são duas coisas diferentes.

A religião, não importa qual seja, prega a não violência, e tem o propósito de buscar ordem no meio do caos, de promover a fé, a esperança e o engajamento na luta por um mundo melhor. Religião teve (e tem) sua importância no mundo, trás mais sentido para nossas vidas e expande nossos olhares para além das questões humanas. Através da religião, podemos exercitar a espiritualidade.

Porém, para praticar a espiritualidade, não é necessário ter uma religião. Espiritualidade é simplesmente cultivar crenças, fé, valores, moralidade, e um sentido de vida mais amplo. Sendo assim, o veganismo não é uma religião, mas pode, sim, ter um lado espiritual, pois desperta forças sublimes como as do amor e da compaixão, componentes básicos para a espiritualidade.

Além disso, o veganismo é uma filosofia de vida que propõe um mundo menos violento, mais justo, e que luta para aliviar o sofrimento, bem como promover a paz, o bem-estar, e liberdade de todos os seres senscientes (senscientes são seres que possuem capacidade de sentir e de ter consciência).

E se trata de uma preocupação com animais humanos e não humanos, já que cada uma das nossas escolhas, boas ou más, trazem consequências, pois se considera a lei do retorno, uma das leis mais respeitadas no mundo.

Por exemplo, estamos vivendo uma pandemia que é consequência do consumo de animais. Esta pandemia é resultado das nossas atitudes de explorar animais.

E o veganismo nos convida a nos responsabilizar mais pelas nossas atitudes, e a construir um mundo com mais empatia e respeito.

Por outro lado, o simples ato de se tornar vegan, não torna automaticamente a pessoa espiritualizada. Pois, embora ser vegano tenha uma definição, cada pessoa experiencia o veganismo de uma forma singular.

Conforme cada pessoa vive esta experiência, isso poderá acarretar impactos positivos, ou negativo.

Por exemplo, o excesso de engajamento em qualquer prática pode levar ao fundamentalismo e consequente rejeição do público. Enquanto o pouco envolvimento, pode resultar em vazio, falta de sentido e automatismo.

E lutar por um proposito como esse, pode trazer benefícios como diminuição da angústia, mais autocontrole e foco. E pode melhorar a nossa relação com o mundo a nossa volta.

Embora veganismo não seja uma religião, se aproxima disso, e isso não precisa soar ofensivo. Veganismo é uma prática linda e necessária para os dias de hoje, pois busca lutar contra os preconceitos e romper barreiras que nos desintegram dos outros seres.

​Read More
Artigos, Notícias

Kapparot: uma cerimônia judaica em que milhares de galinhas são mortas todos os anos

Pixabay

Para os a comunidade judaica, os feriados são uma época agitada regada a muita oração, entes queridos e principalmente comida. Há muitos ritos tradicionais que acontecem durante estas datas que pouco se reflete em como essas datas festivas são comemoradas.

As tradições são maneiras importantes que indivíduos encontram para conectarem-se, muitas vezes, com gerações passadas, bem como com os familiares que participam das tradições. Muitas tradições têm grande valor tanto em nível religioso quanto pessoal. No entanto, as tradições também podem não levar em conta nosso mundo, crenças e egos em constante mudança. Assim, às vezes é importante reexaminar uma tradição, desde suas origens até suas implicações, e encontrar melhores maneiras de participar delas. Muitos argumentam que uma dessas tradições é o Kapparot.

O que é Kapparot?

Kapparot é um costume controverso que ocorre entre uma pequena parte da comunidade judaica entre os feriados, Rosh Hashanah (Ano-Novo Judaico) e Yom Kippur (Dia do Perdão). A prática envolve girar ou balançar uma galinha viva ao redor da cabeça enquanto recita o texto apropriado pedindo a Deus para transferir os pecados da pessoa para a galinha. Não é uma oferta, mas sim “um‘ substituto ’para o indivíduo, como uma expiação por seus pecados.” Portanto, a tradução de “Kapparot” é “Expiação”. O frango é abatido e doado aos pobres para alimentação. Também pode ser vendido e o dinheiro doado a uma causa de caridade. Kapparot não absolve um indivíduo de seus pecados; em vez disso, a esperança é que qualquer punição que o indivíduo possa ter recebido por esses pecados seja transferida para a galinha.

Críticas ao Kapparot ao longo da história

As críticas modernas ao Kapparot com base em suas práticas antiéticas, cruéis e inseguras são constantes. No entanto, as críticas à tradição remontam à concepção de Kapparot. Kapparot não se origina na Torá (texto sagrado do judaísmo é composto pelos primeiros cinco livros bíblia hebraica) ou no Talmud (texto central para o judaísmo rabínico). A primeira discussão conhecida realmente ocorreu no século IX. Os estudiosos notaram que a palavra hebraica “gever” significa tanto “homem” quanto “galinha” e, portanto, “a punição do pássaro pode ser substituída pela de uma pessoa”. No entanto, muitos rabinos desaprovaram esta prática, na maioria das vezes porque a consideravam uma superstição ou um “costume pagão que erroneamente entrou na prática judaica”. Além dessas oposições religiosas e teóricas à prática, muitos rabinos se opuseram a Kapparot devido à crueldade que envolve. Por exemplo, uma das histórias aponta para o “princípio de que não se pode cometer um pecado – neste caso, crueldade com os animais – a fim de cumprir uma mitsvá”.

Crueldade e riscos à saúde associados às cerimônias

As galinhas usadas para o Kapparot devem ser tratadas e mortas de acordo com as leis do judaísmo, que pretendem que o abate seja rápido e “indolor”. No entanto, isso não significa que essas galinhas, e todas as galinhas criadas para carne, não sofrem. A People for the Ethical Treatment of Animals – PETA divulgou imagens comoventes de matadouros Kosher (alimentos de origem animal que obedecem à lei judaica), e houve uma infinidade de casos relatados de frangos sofrendo no Kapparot.

Em 2005, dezenas de galinhas no Brooklyn, Estados Unidos, morreram afogadas porque foram deixadas em suas gaiolas durante uma tempestade e, em 2013, 2.000 galinhas morreram após serem deixadas expostos ao calor intenso. Galinhas famintas foram encontradas abandonadas após a cerimônia e também houve casos em que a carne foi jogada fora, em vez de ser dada aos pobres. Para muitos desses eventos, as galinhas são colocadas em caminhões sem comida ou água suficiente para as longas viagens até as cidades onde Kapparot acontece. Na cerimônia, as galinhas passam por um estresse extremo devido à multidão, ao caos e são deixadas em pilhas de gaiolas abarrotadas, independentemente das condições climáticas. Considerando que há seis dias em que o Kapparot pode ocorrer, algumas galinhas sofrem por períodos de tempo extremamente longos.

Ações judiciais e protestos

Os eventos e práticas que as pessoas testemunharam nos rituais Kapparot não ficaram sem contestação. Em 2015, os residentes do Brooklyn e The Alliance to End Chickens as Kaporos processaram quatro rabinos por práticas de Kapparot. Os tribunais decidiram que Kaparot estava protegida pela “Cláusula de Livre Exercício da Constituição” em 2017 e permitiu que continuasse ocorrendo. O Animal Legal Defense Fund juntou-se ao apelo em 2018 para argumentar que deve haver uma distinção entre a cerimônia religiosa em si e as violações das leis de Nova York, como “Deixar galinhas ao ar livre sem comida, água ou proteção, negando atendimento veterinário as galinhas e descarte de seus corpos nas ruas”.

A The Alliance to End Chickens as Kaporos, refere-se a Kapparot como o “maior mercado para animais vivos nos Estados Unidos”, uma descrição que tem ainda mais significado durante a atual pandemia de doenças zoonóticas. Na ação, eles explicam que a prática transforma as ruas em matadouro, o que não só é desagradável de testemunhar, mas também perigoso para a saúde pública. O toxicologista, Dr. Michael McCabe, estudou amostras de fezes e sangue de um Kapparot e confirmou a alegação de que Kapparot é “um risco significativo para a saúde pública”. Houve até relatos de indivíduos que não participaram dos eventos, mas entraram em contato com as galinhas e, posteriormente, contraíram E.coli (Escherichia coli, é uma bactéria bacilar que se encontra normalmente no trato gastrointestinal inferior e algumas cepas podem causar infecção no trato digestivo, trato urinário ou muitas outras partes do corpo).

A defesa de Kapparot

Kapparot não é um costume obrigatório para participar durante o Dia do Perdão, por exemplo. Mas a maioria da comunidade se concentra no desejo de manter essa tradição. Além disso, alguns dos que participam do costume afirmam que o número de pessoas que realmente se preocupam com o bem-estar animal em geral, é muito baixo.

Eliyahu Federman do USA Today, aponta: “A verdadeira diferença entre Kapparot e a agricultura industrial é que a agricultura industrial ocorre a portas fechadas, enquanto o Kapparot é geralmente realizado em locais muito públicos, como as ruas do Brooklyn e Queens. ” Algumas pessoas que condenam Kapparot ainda podem ir ao supermercado e comprar carne que sofreu tanto quanto as galinhas Kapparot. No entanto, essas pessoas podem permanecer intencionalmente ignorantes, não testemunhando o sofrimento e a carnificina presente no seu jantar. De acordo com Federman, se as pessoas devem condenar essas práticas, elas devem pelo menos ser consistentes em sua preocupação com a crueldade contra os animais. Eles devem também se preocupar com os animais cujo sofrimento eles podem decidir não testemunhar.

Alternativas éticas

Alguns rabinos dizem que assistir o frango sendo abatido oferece a perspectiva: “poderia ter sido eu”. Se devemos pensar em Kapparot dessa maneira, não deveríamos querer limitar o sofrimento de outros animais humanos e não humanos? Se pudéssemos ser nós e alguém tivesse a chance de impedir que isso acontecesse, nós teríamos desejado.

O Rabino do Brooklyn Shlomo Segal nos lembra que “A Torá proíbe os judeus de causar qualquer dor desnecessária às criaturas vivas, até mesmo dor psicológica”. Portanto, é preciso reconsiderar os efeitos de usar galinhas para o Kapparot. Não precisamos matar galinhas para nos lembrar de sermos melhores no próximo ano. Podemos começar a ser indivíduos melhores e mais compassivos agora, defendendo contra o uso de galinhas nesses ritos.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


​Read More
Artigos, Notícias

A cultura da celebridade atrapalha o movimento vegano?

Cantora Miley Cyrus | Foto: Reprodução

Nas últimas semanas, Miley Cyrus renunciou o estilo de vida vegano.

De acordo com Cyrus, ela teve que incorporar peixes em sua dieta porque ‘seu cérebro não estava funcionando corretamente’. Bem, ela pode estar certa, em alguns aspectos. Se ela não estivesse recebendo ômega 3 por meio de suplementos de algas (de onde os próprios peixes os obtêm) ou de uma alimentação vegana balanceada, a saúde do seu cérebro realmente estaria sofrendo.

Mas, basta alguns minutos de pesquisa no Google para descobrir que um suplemento de óleo de algas ou a ingestão regular de certas nozes e sementes (especialmente nozes e sementes de linhaça) teria fornecido a ela fontes muito mais saudáveis ​​de ômega 3 do que peixes.

Sementes de linhaça | Foto: Reprodução Pixabay

 

Desde o anúncio de Cyrus, veganos no mundo inteiro expressam pelas redes sociais total decepção com a desistência do veganismo de uma artista pop mundialmente conhecida.

Inúmeros sites têm entrado na onda com comentários sarcásticos sobre possível desnutrição, e até mesmo grupos estão discutindo como isso aconteceria se você ‘restringisse tanto sua alimentação’.

E este é o problema. Os holofotes se afastaram das vítimas – os animais presos em fazendas horríveis antes de serem enviados para uma morte brutal – para uma pessoa extremamente privilegiada de fato pesquisar antes de produzir falas inconsistentes.

Defensores dos animais comprometidos continuam a se apresentar nas ruas, mostrando imagens de fazendas de fábricas às pessoas, tendo conversas difíceis, educando seus amigos e familiares sobre alternativas para uma alimentação vegana e lutando por um mundo melhor.

Mas, graças ao nosso comportamento diante da revelação de celebridades, a decisão de Cyrus de comer peixe é a história que roubou as manchetes do mundo todo. A sociedade está lentamente se aproximando do entendimento de que comer animais é extremamente danoso, mas todo esse trabalho é desfeito quando nos permitimos colocar as pessoas em pedestais e tomar sua palavra como evangelho.

Estilo de vida vegano | Foto: Reprodução Pixabay

O movimento vegano visa acabar com a opressão animal. Mas quando permitimos que alguns humanos tenham mais importância do que outros, como podemos esperar que as pessoas valorizem igualmente os animais humanos e não humanos?

As celebridades vendem seu estilo de vida como sua marca, mas ser vegano é muito mais do que isso. É hora de pararmos de glorificar aqueles que estão sob os holofotes e nos concentrarmos naqueles que estão presos em jaulas, fazendas e locais que ninguém deveria viver.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

​Read More
Artigos, Notícias

Diante do “Antropocaos”: veganismo e crise climática

Por Mariah Peixoto*

Pixabay

A intensa intervenção humana nos ecossistemas, os insustentáveis padrões de consumo e o utópico anseio por um crescimento econômico ilimitado são alguns dos fatores que estão a gerar graves consequências ambientais em toda a extensão do globo terrestre, ameaçando a vida das espécies que aqui habitam. Apesar do negacionismo vigente no cenário político nacional e internacional, temos que a crise climática, como nos aponta a comunidade científica e organizações internacionais como as Nações Unidas [1], é hoje um dos principais problemas a serem enfrentados no Antropoceno.

O entendimento da natureza como mero recurso, a construção de uma jurisprudência que atende exclusivamente ao “Homem” e um aparato cultural que dissemina e valida a narrativa de superioridade da razão e do domínio da linguagem, justificando a opressão daqueles tidos como “irracionais”, são alguns fatores que intensamente contribuem para o agravamento e desencadeamento de crises que hoje vivenciamos. Estamos diante de um sistema biopolítico que assegura e legitima uma sórdida e estrutural dominação exercida sobre outros animais, humanos e não humanos, visando o bem-estar de uma pequena parcela daqueles que aqui habitam.

Por mais que tentemos ignorar por razões diversas, como cultura, hábito, estrutura econômica e outros, há uma inegável conexão entre as mudanças climáticas e a exploração sistêmica de outras espécies animais, foco do presente ensaio. Até mesmo a pandemia do COVID-19, que severamente abala e danifica toda uma estrutura global, se conecta intimamente com a biopolítica que rege as relações interespécies.

Como nos aponta um relatório produzido pela FAO em 2013 [2], o surgimento de vírus como o do HIV-1 (vírus da imunodeficiência), a doença da “vaca louca”, SARS/SRAG (síndrome respiratória aguda grave), gripe suína e outras tantas podem ser atribuídas ao consumo de produtos de origem animais, tanto de espécies “exóticas” quanto as “de criação”. No caso do coronavírus em específico, pesquisas [3][4][5] apontam que seu surgimento pode estar associado ao consumo de animais selvagens comercializados em Wuhan, Hubei (China), sendo uma gravíssima zoonose.

Já a crise climática, por sua vez, é mais um sério exemplo de como o antropocentrismo traduzido na exploração e consumo de animais não-humanos gera não apenas o sofrimento e morte desses, mas também nossa. Pensando no cenário nacional e em nossa infeliz contribuição para o agravamento dessa tenebrosa crise, medições e dados [6] nos indicam que o desmatamento de florestas tropicais gera um impacto substancial no aumento da emissão de gases de efeito estufa. Porém, o que motiva tal desmatamento? Pesquisadores apontam para existência de três principais causas diretas do desmatamento da Amazônia brasileira: “a pecuária, a agricultura de larga escala e a agricultura de corte e queima” [7] (RIVERO et al., 2009, p. 42), sendo dessas a pecuária bovina a mais relevante. O chamado animal industrial complex, que se traduz na exploração em escala industrial de animais não humanos para consumos diversos, portanto, possui uma contribuição direta na intensificação do aquecimento global, tanto por impulsionar o desmatamento quanto pela alta taxa de metano entérico emitida pelos próprios rebanhos [8].

Os devastadores e inadmissíveis incêndios, muitos deles criminosos, que consumiram quase 3 milhões de hectares de nosso pantanal em 2020 [9] também têm suas raízes fundamentadas sobre a exploração animal. De acordo com a Polícia Federal [10] e investigações jornalísticas [11], a maior suspeita é de que os incêndios provocados tenham tido a intenção clara de transformar uma riquíssima biodiversidade em simples pasto. Sim, pasto esse que servirá de alimento para gados que, por sua vez, alimentarão, sem justificativa nutricional [12][13], aqueles que insistem em manter animais mortos em suas dietas.

Diante da miríade de desafios ecológicos e sociais que despontam nesse Novo Regime Climático, abolir o consumo de animais é uma necessidade não apenas ética e moral, mas também factual. O veganismo político se apresenta como crucial para a construção de experiências verdadeiramente democráticas, democracia essa que deverá se estender para além do humano. Não podemos prosseguir a dar voz nem a políticos e líderes negacionistas, esses que descaradamente mentem, negam fatos e culpam “índios e caboclos” [12] por incêndios que, em realidade, são associados ao abastecimento de gigantes do agronegócio, nem a qualquer um que não tenha a pauta animal e ambiental como prioridade. Não podemos pautar nosso desenvolvimento econômico em uma destruição que, ao final, assinará nossa própria sentença de morte.

É necessário que dediquemos, coletivamente, nossas energias para a busca de novas soluções para os problemas econômicos, sociais e ambientais que nos assolam, sem apostar em uma tradicional receita que se mostrou fadada ao fracasso. Porém, também é necessário abdicarmos o hedonismo egoísta que nos leva a ignorar as consequências e dilemas éticos de nossos prazeres, fechando os olhos a toda exploração envolvida na produção daquilo que consumimos de forma supérflua (e como dito acima, consumir produtos de origem animal não é uma necessidade nutricional real!).

Uma mudança estrutural não se sustentará se não reverberar, genuinamente, em nossos microcosmos. Um novo comportamento coletivo não se formará sem a adesão individual. Assim, por mais que pareça pequena diante de tantos problemas que vivenciamos globalmente, a adoção do veganismo é uma forte ação política, abalando microestruturas e colaborando para a construção de futuros sistemas mais empáticos e includentes.

Por fim, passar a considerar os direitos dos animais não humanos é um importante passo para que possamos construir uma relação menos predatória para com a natureza como um todo. Criar uma consciência ecológica é essencial para a superação de uma crise ambiental que, caso não seja levada com seriedade, prosseguirá mostrando sua força com cada vez mais afinco e destruição. O presente exige mudanças para que o futuro ao menos exista.

* Mariah Peixoto é uma das coordenadoras da linha de pesquisa e extensão D.I.A.N. (@projetodian) da Universidade de São Paulo – Campus Leste (EACH-USP), dedicado a discutir direitos animais, ecojustiça e educação.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

​Read More