De olho no planeta

Até 2050, 4 trilhões de dólares deverão ser investidos na natureza

Foto por Vlad Hilitanu no Unsplash

Recentemente o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), junto do Fórum Econômico Mundial e com a iniciativa Economia da Degradação da Terra, por meio da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) em colaboração com a Vivid Economics, lançam o relatório Estado das Finanças para a Natureza, que acompanha as tendências globais público e privadas em soluções baseadas na natureza. As informações são do portal Vegazeta.

O relatório prevê a necessidade de se investir na natureza em aproximadamente 4 trilhões de dólares entre 2021 e 2050, e portanto, um investimento de 536 bilhões de dólares por ano para criar soluções às crises climáticas, geológicas (degradação da terra) e da biodiversidade.

Os investimentos anuais até 2030 terão que triplicar e até 2050 terão que quadriplicar em relação aos valores mais atuais, sendo 133 bilhões o valor investido segundo dados de 2018, representando apenas 0,10 do PIB global.

O relatório enfatiza a pauta da natureza, a colocando como prioridade de investimento. Tanto os setores públicos e privados deveriam agilizar os fluxos capitais e as soluções baseadas na natureza ao considerar os desafios da sociedade e ao enfrentar crises climáticas e de biodiversidade, para assim diminuir as lacunas de investimento existentes.

Por que investir na natureza?

Ao ensejar transformações quanto ao direcionamento de investimentos e de criação de soluções pensando na natureza, tende-se a reconstrução sustentável. Ainda mais após a pandemia de Covid-19, segundo o relatório, deve ser repensado o uso de determinados combustíveis fósseis por exemplo, e incentivar mais a partir de modelos econômicos e regulações públicas estas transformações, já que a curto e a longo prazo os benefícios podem ser muitos para todos.

Investir na natureza significa a melhora da saúde no planeta, além de elevar a geração de empregos. Apesar disso, o estímulo econômico para tal tipo de investimento é baixo hoje, representando apenas 2,5% dos gastos de estímulo econômico. Pelo menos é o que se projeta para período pós pandemia, e é exatamente o tipo de questão que o relatório propõe mudanças.

O documento traz a importância da ampliação de fluxos de receita dos serviços do ecossistema aliado a modelos de financiamento, para assim atrair investidores do sistema privado, já que as transformações precisam do compartilhamento de riscos da entidade privada. Portanto, ele serve de alerta para que governos, instituições financeiras e empresas invistam na natureza, para atentarem-se a práticas de reflorestamento, agricultura regenerativa e a restauração dos oceanos.

Os países e líderes do setor privado terão a oportunidade de discutir sobre soluções baseadas na natureza nas próximas cúpulas sobre o clima, a biodiversidade, a degradação da terra e sistemas alimentares no contexto atual da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021-2030).

Manejo, restauração e conservação

Soluções baseadas em florestas vão exigir o investimento mundial de 203 bilhões de dólares anualmente, equivalendo a 25 dólares anuais por pessoa em 2021. O relatório traça os tipos de investimentos necessários, sendo eles medidas de manejo, conservação e restauração que almejam o aumento de áreas florestais e agroflorestais de aproximadamente 300 milhões de hectares até 2050, em relação a 2020.

As reuniões internacionais que irão discutir as questões relativas a soluções baseadas na natureza, bem como o lançamento da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas em 5 de junho de 2021, indicam a oportunidade governamental, financeira e empresarial de alinhar os desafios econômicos atuais, como a recuperação econômica, com o Acordo de Paris e o Quadro Global para a Biodiversidade Pós-2020 antecipado, consistindo na limitação do aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, e na redução e reversão da perda de biodiversidade.

Investimento em soluções baseadas na natureza

Em 2018, 18 bilhões de dólares, segundo apontamento do relatório, foi o investido pelo setor privado em soluções baseadas na natureza, sendo que o financiamento privado foi de apenas 14%, vindos principalmente de empresas de suprimento agrícolas e florestais sustentáveis; de investimentos de capital privado e filantrópico; de compensações de biodiversidade por entidades privadas; e mercados de carbono relacionados ao uso da terra, como a floresta.

Já no financiamento climático, o investimento do setor privado foi maior, sendo de 56% de acordo com a Climate Policy Initiative. Pelo fluxo muito menor no financiamento da natureza pelas entidades privadas, ficará o desafio para os próximos anos na ampliação do capital privado em soluções baseadas na natureza, e interligada ao crescimento econômico sustentável no século 21.

O setor público e privado necessitam desenvolver modelos de mercado amparados por soluções baseadas na natureza que repensem as formas de gerar receita, sem agredi-la, e que ainda propiciam o fortalecimento das atividades comerciais, reduzam custos e contribuam de maneira geral para o propósito do crescimento econômico sustentável dos próximos anos.

É necessário maior compartilhamento de risco do setor privado, porque apesar de parcela dele agir, está sendo insuficiente segundo as lacunas de investimento em soluções baseadas na natureza tratadas no relatório. Ainda falta maior comprometimento e responsabilidade do setor privado em promover estas soluções, estabelecendo metas claras e com limite de tempo.

As soluções baseadas na natureza não substituem a descarbonização de todos os setores da economia, mas são importantes, contribuem com a diminuição e a adaptação às mudanças climáticas necessárias.

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Empresa cria tênis a partir de balões de festas

Foto: Undo for Tomorrow/ reprodução

A Undo for Tomorrow, uma empresa de calçados sustentáveis, lançou o seu mais novo modelo, “Nuven”, um tênis que tem sua sola desenvolvida a partir da reutilização de balões de festa. Segundo a empresa, seus calçados foram criados para mostrar a versatilidade dos produtos reutilizáveis. 

“Como empresa, queremos mudar a maneira como as pessoas veem o ‘lixo’ e provar que os materiais reciclados valem tanto quanto os novos”, afirmou a Undo for Tomorrow. Segundo a empresa, o processo de produção não leva nada de origem animal. 

“O forro é feito 100% de bambu, tem um toque sedoso e auxilia no controle de odores, além de ser antibacteriano. Escolhemos também uma camurça superlisa de plástico reciclado para a cama externa e adicionamos uma capa à prova d’água para que você não precise se preocupar com dias de chuva”, acrescenta. “Para finalizar, nossa palmilha é feita de óleo de rícino e é da Ortholite, marca que é líder mundial em palmilhas de conforto. Acreditamos que os calçados de uso diário não devem ser duros e feitos de materiais comuns que prejudicam nossos pés, costas e o meio ambiente.”

A empresa foi criada no Rio de Janeiro, em 2018, mas desde então tem sua sede em Lisboa e fabrica seus calçados na cidade de Franca, em São Paulo, após uma parceria com uma fábrica familiar que se compromete em manter seus produtos de acordo com responsabilidades humanas, ambientais e sociais, afirma o Vegazeta.

“Isso significa boas condições de trabalho e salários. Eles investem em máquinas e equipamentos de última geração, utilizando apenas materiais de alta qualidade, fornecidos principalmente para o próprio mercado interno brasileiro.”

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De olho no planeta, Sem categoria

Réplicas de obras famosas recriadas com sacolas plásticas

A Grande Onda de Kanagawa foi recriada com sacolas plásticas por Eduardo Srur. Imagem: www.eduardosrur.com.br

Eduardo Srur é um artista que vive e trabalha em São Paulo. Ele estudou na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e iniciou a carreira nos anos 90 com a pintura e recebeu diversos prêmios por seus trabalhos.

Srur se tornou conhecido pelas grandes intervenções na cidade de São Paulo. Suas obras tem como principal objetivo aproximar a arte da população e despertar o senso crítico para as questões ambientais das grandes metrópoles.

O Artista iniciou em 2019 uma série chamada de “Natureza Plástica”, réplicas de obras famosas de grandes artistas, tais como Mona Lisa (after Leonardo da Vinci), Noite Estrelada (after Van Gogh), O Grito (after Edvard Munch) entre outras.

A grande surpresa destas obras é que elas foram “pintadas” utilizando sacolas plásticas recolhidas nas margens dos rios, ruas e cooperativas de reciclagem.

Srur utiliza somente fragmentos plásticos para a recriação das obras, sem o uso de pincéis ou tinta óleo como em pinturas convencionais.

Em entrevista para Ecoa da UOL o artista diz: “Usei trabalhos que pertencem ao imaginário popular, que as pessoas conhecem, têm afinidade. E, quando se aproximam, são surpreendidas pelo plástico.”

“O plástico ganhou um novo significado na minha vida. Não consigo ver uma sacola no chão que eu pego. E, se pego uma sacola numa loja, é porque vai ter um destino mais nobre, de trabalho de arte”.

“É uma provocação: o que você joga fora e não dá nenhum valor, eu transformo numa pintura. Não consigo me conformar com a anestesia da sociedade em relação ao meio ambiente. Como as pessoas usam e descartam plástico aos milhares”.

No dia do Meio Ambiente o artista pretende abrir as portas de sua própria galeria para expor esta série e outras de seu acervo.

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Crise climática mudou o eixo da Terra, mostra estudo

Foto: Reprodução | Pixabay

O derretimento maciço das geleiras como resultado do aquecimento global causou mudanças marcantes no eixo de rotação da Terra desde a década de 1990 de acordo com estudos. Isso demonstra o profundo impacto que os humanos estão tendo no planeta, disseram os cientistas.

Os polos geográficos norte e sul do planeta são o ponto onde seu eixo de rotação cruza a superfície, mas eles não são fixos. Mudanças em como a massa da Terra é distribuída ao redor do planeta movem o eixo e, portanto, os polos.

No passado, apenas fatores naturais como as correntes oceânicas e a convecção de rochas quentes nas profundezas da Terra contribuíam para a posição dos polos à deriva. Mas a nova pesquisa mostra que, desde a década de 1990, a perda de centenas de bilhões de toneladas de gelo por ano nos oceanos, resultante da crise climática, moveu os polos em novas direções.

Os cientistas descobriram que a direção da deriva polar mudou de sul para leste em 1995 e que a velocidade média de deriva de 1995 a 2020 foi 17 vezes mais rápida do que de 1981 a 1995.

Desde 1980, a posição dos postes mudou cerca de quatro metros de distância.

“O declínio acelerado [na água armazenada na terra] resultante do derretimento do gelo glacial é o principal motor da rápida deriva polar após a década de 1990”, concluiu a equipe, liderada por Shanshan Deng, do Instituto de Ciências Geográficas e Pesquisa de Recursos Naturais na Academia Chinesa de Ciências.

Os dados relacionados à gravidade do satélite Grace, lançado em 2002, foram usados ​​para vincular o derretimento glacial aos movimentos do polo em 2005 e 2012, ambos após aumentos nas perdas de gelo. Mas a pesquisa de Deng inova ao estender o link para antes do lançamento do satélite, mostrando que as atividades humanas têm mudado os polos desde a década de 1990, quase três décadas atrás.

A pesquisa, publicada na revista Geophysical Research Letters, mostrou que as perdas glaciais foram responsáveis ​​pela maior parte da mudança, mas é provável que o bombeamento da água subterrânea também tenha contribuído para os movimentos.

A água subterrânea é armazenada sob a terra, mas, uma vez bombeada para beber ou para a agricultura, a maioria eventualmente flui para o mar, redistribuindo seu peso ao redor do mundo. Nos últimos 50 anos, a humanidade removeu 18 trilhões de toneladas de água de reservatórios subterrâneos profundos sem que fosse substituída.

Vincent Humphrey, da Universidade de Zurique, Suíça, não envolvido na nova pesquisa, disse que ela mostrou como as atividades humanas redistribuíram grandes quantidades de água ao redor do planeta: “Isso mostra o quão forte é essa mudança em massa – é tão grande que pode mudar o eixo da Terra”. No entanto, o movimento do eixo da Terra não é grande o suficiente para afetar a vida diária, de acordo com ele: “pode mudar a duração de um dia, mas apenas em milissegundos”.

O professor Jonathan Overpeck, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, disse ao Guardian anteriormente que as mudanças no eixo da Terra destacaram “o quão real e profundamente grande é o impacto que os humanos estão tendo no planeta”.

Alguns cientistas argumentam que a escala desse impacto significa que uma nova época geológica ­– o Antropoceno – precisa ser declarada. Desde meados do século 20, houve uma acentuada aceleração das emissões de dióxido de carbono e aumento do nível do mar, a destruição da vida selvagem e a transformação da terra pela agricultura, desmatamento e desenvolvimento.

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Emissões de carbono vão disparar em 2021 pela segunda maior taxa da história

Foto: Pixabay

As emissões de dióxido de carbono devem saltar este ano para o segundo maior aumento anual da história, à medida que as economias globais despejam dinheiro de estímulo em combustíveis fósseis na recuperação da recessão Covid-19.

O salto ficará atrás apenas da recuperação massiva de dez anos atrás, após a crise financeira, e colocará as esperanças climáticas fora de alcance, a menos que os governos ajam rapidamente, alertou a Agência Internacional de Energia.

O uso crescente de carvão, o combustível fóssil mais sujo, para eletricidade está causando o aumento das emissões, especialmente na Ásia, mas também nos Estados Unidos. A recuperação do carvão causa particular preocupação porque ocorre apesar da queda dos preços da energia renovável, que agora é mais barata do que o carvão.

Falando exclusivamente com Guardian, Fatih Birol, diretora executiva da IEA e uma das maiores autoridades mundiais em energia e clima, disse: “Isso é chocante e muito perturbador. Por um lado, os governos hoje estão dizendo que a mudança climática é sua prioridade. Mas, por outro lado, estamos vendo o segundo maior aumento de emissões da história. É realmente decepcionante. ”

As emissões precisam ser reduzidas em 45% nesta década, se o mundo quiser limitar o aquecimento global a 1,5 ° C (2,7 ° F), alertaram os cientistas. Isso significa que 2020 deve ser a década em que o mundo muda de rumo, antes que o nível de carbono na atmosfera aumente muito para evitar níveis perigosos de aquecimento. Mas a escala da atual recuperação das emissões da crise da Covid-19 significa que “nosso ponto de partida definitivamente não é bom”, disse Birol.

Birol comparou o atual aumento das emissões à crise financeira, quando as emissões aumentaram mais de 6% em 2010, depois que os países tentaram estimular suas economias por meio de energia de combustível fóssil barata. “Parece que voltamos a repetir os mesmos erros”, alertou. “Estou mais decepcionado desta vez do que em 2010.”

As emissões caíram um recorde de 7% globalmente no ano passado, devido aos bloqueios que se seguiram ao surto da Covid-19. Mas, no final do ano, eles já estavam se recuperando e a caminho de ultrapassar os níveis de 2019 em algumas áreas.

As projeções da IEA para 2021 mostram que as emissões provavelmente terminarão este ano ainda ligeiramente abaixo dos níveis de 2019, mas em um caminho ascendente. No próximo ano, pode haver aumentos ainda mais fortes com o retorno das viagens aéreas, acrescentou Birol. A aviação normalmente contribuiria com mais de 2% das emissões globais, mas esteve quase ausente no ano passado.

Ele pediu aos governos que apresentassem novas políticas climáticas com urgência e busquem uma recuperação ecológica da crise da Covid-19. “No ano passado, expressei minha esperança de que a recuperação econômica da Covid-19 seja verde e sustentável. Mas esses números indicam que essa recuperação hoje é tudo menos sustentável para o nosso clima ”, disse ele.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está convocando uma cúpula do clima esta semana, com a expectativa de participação de líderes de 40 países, na qual ele exortará os países a apresentarem compromissos firmes na redução das emissões nesta década. Birol disse que esta é uma oportunidade para os países mudarem de rumo e implementarem políticas para uma recuperação verde.

“Se os governos tomarem medidas claras e iminentes, com a quantidade de tecnologias de energia limpa e baratas que temos, podemos transformar essa decepção em alguns bons resultados”, disse ele.

A IEA é considerada o padrão global de ouro para dados de energia, e suas projeções para 2021 são baseadas em sondagens abrangentes de todo o mundo, incluindo dados de fontes de energia existentes e novas usinas programadas para entrar em operação. Os dados de energia do final do ano passado mostraram os combustíveis fósseis à frente dos níveis de 2019, e o aumento continuou na primeira parte deste ano.

Em seu Global Energy Review, publicado na terça-feira, a IEA descobriu que as emissões globais de carbono do uso de energia, que responde pela grande maioria das emissões de gases de efeito estufa, estavam em curso para aumentar em 1,5 bilhão de toneladas em 2021, após ter caído no ano passado. Isso representa um aumento de 5% para 33 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no ano. Após mais de meia década de declínio, a demanda global por carvão deve crescer 4,5%, aproximando-se do pico de todos os tempos em 2014.

A China planeja construir dezenas de usinas termelétricas a carvão, apesar de ter prometido no ano passado atingir emissões líquidas zero até 2060. O plano econômico de cinco anos do país, estabelecido por Pequim no mês passado, continha poucos detalhes sobre a redução das emissões antes de 2030. No entanto, , após uma visita surpresa a Xangai do enviado climático dos EUA, John Kerry, os EUA e a China prometeram cooperação nas emissões de gases de efeito estufa na próxima década.

O uso de carvão também está aumentando nos EUA, revertendo as quedas anuais desde 2013. Birol disse que isso foi resultado dos altos preços do gás, que estão levando a uma mudança do gás para o carvão na geração de eletricidade. Donald Trump, como presidente, descartou as regulamentações estabelecidas por Barack Obama para restringir o uso de carvão pelas usinas de energia. Biden está considerando outras medidas para acelerar a mudança para a energia renovável.

Nicholas Stern, economista do clima e presidente do instituto de pesquisa Grantham sobre mudança climática da London School of Economics, disse que os resultados da IEA “mostram que os países realmente devem agir com maior urgência para acelerar a transição para os caminhos de carbono zero, se estivermos ter uma chance de redução das emissões de acordo com o acordo de Paris. Esta é uma oportunidade crucial e histórica de reconstruir de forma diferente das formas poluentes do passado e, em particular, de se afastar muito mais rapidamente do carvão. Uma recuperação forte e sustentável virá de menos carvão, não mais. ”

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Cassinos, condomínios e cana de açúcar: como um parque nacional no Camboja está sendo vendido

O Parque Nacional Botum Sakor, no sul do Camboja, perdeu ao menos 30.000 hectares de floresta nos últimos 30 anos.

Essa degradação ambiental teve início nos anos 90, quando o governo cambojano começou a distribuir concessões econômicas das terras para que fossem desenvolvidas plantações comerciais e infraestruturas turísticas.

As ONGs no Camboja não estão dispostas a se manifestar contra a destruição do Botum Sakor, pois têm medo de que não poderão mais operar no país se o fizerem.

O governo diz que as atividades econômicas são vitais para aprimorar a qualidade de vida da população e reduzir a pobreza.

Foto: Frendi Apen Irawan via Wikimedia Commons

Cobrindo uma vasta península no Golfo da Tailândia, na costa sul do Camboja, Botum Sakor é um dos maiores parques nacionais no país, e é conhecido por sua rica diversidade de fauna e flora.

É casa para mais de 500 espécies de pássaros e ao menos 44 espécies de mamíferos, incluindo o pangolim-malaio, o cão-selvagem asiático (Cuon alpinus), o elefante asiático (Elephas maximus) e o gibão-crestado (Hylobates pileatus), todos classificados como em perigo crítico ou em perigo pela Lista vermelha da IUCN.

Contudo, nas últimas duas décadas Botum Sakor ganhou uma reputação negativa por ter uma das maiores taxas de desmatamento no Camboja, sendo descrito por aqueles que visitam o local como “um parque de papel” que está efetivamente sendo destruído.

O parque cobre uma extensão de pouco mais de 170.000 hectares (420.000 acres), mas grandes áreas já foram desmatadas. Dados de satélite da Universidade de Maryland (UMD) exibidos na plataforma de monitoramento florestal Global Forest Watch (GFW) mostram que o parque perdeu 24.500 hectares de floresta úmida primária entre 2002 e 2020. Ou seja, 24% da floresta antiga do parque foi destruída nos últimos 18 anos. A perda total de cobertura de árvores (que leva em conta também a perda de floresta secundária) é ainda maior, equivalendo a mais de 32.000 hectares desmatados.

O desmatamento dentro do parque parece ter atingido seu pico em 2012, com a perda de mais de 3.000 hectares de floresta primária somente naquele ano, depois diminuiu para níveis mais baixos durante a maior parte da última década. Em 2019 e 2020, o desmatamento aumentou novamente, para 2.230 e 1.450 hectares perdidos em cada ano respectivamente.

Em um artigo no New Mandala publicado em 2015, Bandos Ros, um pesquisador afiliado à Hiroshima University, escreveu que o desmatamento “acelerou no período de 2003 a 2013, quando o Camboja passou por um aumento no investimento estrangeiro direto”.

Desde o final da década de 1990, o governo do Camboja garantiu ao menos nove concessões econômicas de terras à empresas privadas dentro do parque para plantações comerciais (de plantas acácia e cana-de-açúcar), ecoturismo e desenvolvimento de infraestrutura. Estima-se que 70% do parque foi dividido dessa forma.

Em 2008, a empresa chinesa Tianjin Union Development Group (UDG) firmou um contrato de 99 anos adquirindo 36.000 hectares de terras costeiras para o desenvolvimento do Dara Sakor Seashore Resort, no extremo sul da península.

De acordo com uma pesquisa publicada no International Journal of Asia Pacific Studies, em 2018, essa concessão cobriu 12 comunidades costeiras e envolveu a realocação de 1.500 pessoas cerca de 20 km para o interior. A UDG foi autorizada a desenvolver instalações turísticas, como cassinos, condomínios e apartamentos, disse o jornal.

Uma rodovia de 65 km com quatro pistas foi escavada na floresta virgem do parque rumo ao novo resort. De acordo com a MCC Singapore, uma empresa imobiliária chinesa, um aeroporto internacional em construção será concluído este ano, enquanto “um terminal internacional de contêineres de 100.000 toneladas, um terminal de cruzeiros, um terminal de carga de 2.000 toneladas e um porto para iates” também estão planejados.

Mas há suspeitas de que Dara Sakor não é tudo o que as autoridades cambojanas afirmam. Em 2020, a Voice of America (VOA) Camboja informou que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções econômicas à UDG por confisco de terras e deslocamento de famílias.

“[O ex-secretário de Estado dos EUA] Mike Pompeo disse que havia ‘relatos confiáveis de que Dara Sakor’ poderia ser usado para hospedar ativos militares chineses”, disse a VOA, uma acusação negada pela UDG, que disse que o Camboja tinha uma proibição constitucional de tropas estrangeiras em seu território.

Gonzalez-Davidson, que não tem mais permissão para morar no Camboja por causa de seu trabalho ambientalista, disse que se suspeita que o empreendimento seja uma fachada para a lavagem de dinheiro chinesa, “mas ninguém sabe realmente como funciona”. Muito do que está acontecendo em Botum Sakor, ele acrescentou, é dividir a terra pelo lance mais alto.

“O maior recurso é a terra”, disse ele. “A madeira mais cara, como pau-rosa, acabou. Você teria sorte de encontrar muitas árvores de valor lá agora. ”

Abu Kibria e Alison Behie argumentaram em um artigo para a Asia & The Pacific Policy Society que o governo cambojano não estava levando em consideração o valor do ar e da água limpos, bem como do sequestro de carbono pelas árvores e solo, ao permitir essa degradação ambiental acontecer. Uma pesquisa publicada na Ecosystem Services estimou que o Camboja perderia 130 milhões de dólares por ano em benefícios econômicos, a menos que o desmatamento em outro parque nacional, Veun Sai-Siem Pang, fosse interrompido.

Em outra parte do Botum Sakor, pelo menos 9.000 hectares foram concedidos a um consórcio envolvendo o senador cambojano Ly Yong Phat e empresas da Tailândia e de Taiwan para plantações de cana-de-açúcar.

Conforme discutido em seu relatório de 2013 , a Equitable Cambodia e a Inclusive Development International descobriram que um esquema de comércio preferencial da União Europeia voltado aos países em desenvolvimento havia fornecido acesso isento de impostos ao mercado europeu e um preço mínimo para o açúcar que era três vezes o preço mundial. Isso resultou em uma epidemia de grilagem de terras que incluiu “despejos forçados violentos” (de pequenos produtores de alimentos e comunidades rurais) e outras violações dos direitos humanos.

Múltiplas fontes, incluindo um relatório publicado pelo York Center for Asian Research em 2005, confirmam que outra grande concessão foi dada a uma empresa cambojano-chinesa chamada Green Rich , que recebeu 18.000 hectares no norte do parque em 2003 para o cultivo de dendezeiros, acácias e outras plantações de commodities. Imagens de satélite sugerem que esta área do parque foi quase totalmente limpa de floresta natural.

Há uma exceção nessa trilha de destruição ambiental. A Concessão JW é protegida pela ONG americana Wildlife Alliance e guardas florestais sob o controle do Ministério do Meio Ambiente do Camboja. Localizada em um mosaico de florestas e clareiras de pastagens e cobrindo pouco mais de 18.000 hectares (cerca de 10% do parque) a concessão parece ser a única parte devidamente protegida do parque.

A Wildlife Alliance ajudou a estabelecer uma iniciativa de ecoturismo, Cardamom Tented Camp, e diz que a caça e a extração ilegal de madeira foram drasticamente reduzidas desde que os guardas florestais começaram a patrulhar a concessão em 2013.

“Uma alta densidade de reforços policiais dentro da concessão (cerca de 8 guardas florestais a cada 100 km²), resultado dos altos investimento em conservação, parece ter reduzido os níveis de caça ilegal em comparação com áreas adjacentes”, afirma uma carta na Animal Conservation escrita em 2019 pelo diretor de ciências da Wildlife Alliance, Thomas Gray.

Mas muitos ambientalistas dizem que a concessão da Wildlife Alliance está apenas tapando as rachaduras. “A costa foi vendida aos chineses, um importante mafioso da província de Koh Kong agarrou lotes de terras para vários projetos duvidosos, há uma plantação de madeira para extração de celulose derrubando áreas de mangue e os chineses estão construindo um aeroporto monstruoso para ‘ecoturismo’ ” disse Marcus Hardtke, um ambientalista que trabalha no Camboja desde 1996. “A Wildlife Alliance conseguiu um pequeno local para executar um projeto de ecoturismo, mas o parque como tem muito pouco a ver com o conceito original da IUCN de representar o ecossistema ‘da montanha ao mar’.”

Um conservacionista que trabalhou no Camboja por várias décadas e que solicitou anonimato para falar com o Mongabay, estimou que apenas cerca de 50% do parque permanece intocado. “É difícil imaginar que ainda restará muito mais, além da concessão da Wildlife Alliance daqui a uma década”, acrescentou. “Todo o caminho que leva ao desenvolvimento chinês está sendo destruído.”

O conservacionista disse que a concessão da Green Rich foi retirada do parque e entregue às autoridades da província, que estão realojando as pessoas lá. “O problema é que eles deram terras muito pobres e inúteis para a agricultura. Eu já vi isso antes, e eles vão caçar animais selvagens. Eles não vão cultivar nada por um ano, então eles vão colocar armadilhas em todos os lugares. ”

De acordo com várias fontes, a Green Rich – também conhecida como Green Elite – é uma empresa de fachada da Asia Pulp & Paper (APP). Mongabay contatou a APP para saber mais sobre a concessão em Botum Sakor, mas não recebeu uma resposta.

Solicitado a comentar sobre as questões levantadas neste artigo, Neth Pheaktra, porta-voz do Ministério do Meio Ambiente do Camboja, disse que o governo precisava encontrar investidores para aumentar as oportunidades de emprego, reduzir a pobreza e melhorar a qualidade de vida.

“O governo dá grande atenção à proteção ambiental e conservação da biodiversidade em Botum Sakor, enquanto o Ministério do Meio Ambiente está trabalhando para determinar o zoneamento da área protegida e o planejamento do parque para a proteção efetiva dos recursos naturais e também para fornecer direitos exclusivos para as comunidades locais para o uso sustentável dos recursos dentro do parque ”, acrescentou.

O Mongabay contatou várias ONGs que operam no Camboja, incluindo a Wildlife Alliance, Fauna & Flora International e a WWF-Cambodia, para perguntar sobre o desmatamento em Botum Sakor, mas nenhuma dessas organizações estava preparada para ser entrevistada.

Gonzalez-Davidson, da Mãe Natureza do Camboja, disse não estar surpreso. “Nenhum deles quer problemas”, disse ele. “Quando criamos problemas o regime nos usou como mensagem [ao não permitir que ele voltasse ao país]. “Essas ONGs nunca diriam nada de ruim, o que é terrível, porque a extensão do desmatamento é muito grande.”

Nota do editor: Esta história foi promovida por Places to Watch , uma iniciativa da Global Forest Watch (GFW) planejada para identificar rapidamente a destruição de florestas em todo o mundo e acelerar investigações adicionais nessas áreas. O Places to Watch se baseia em uma combinação de dados de satélite em tempo real, algoritmos automatizados e estudos de campo para identificar novas áreas periodicamente. Em parceria com o Mongabay, o GFW está apoiando o jornalismo baseado em dados, fornecendo dados e mapas gerados pelo Places to Watch. O Mongabay mantém total independência editorial sobre as histórias relatadas usando esses dados.

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ONU pede aos governos que redirecionem subsídios prejudiciais para benefício do planeta

Foto: Pixabay

Bilhões de libras de subsídios governamentais prejudiciais ao meio ambiente devem ser redirecionados para beneficiar a natureza, disse o chefe de biodiversidade da Organização das Nações Unidas, antes do recomeço das negociações de um acordo internacional para estabelecer novas metas.

Elizabeth Maruma Mrema, a secretária executiva da Convenção de Diversidade Biológica da ONU, afirmou que os estados devem revisar e adaptar seu suporte à agricultura, pesca e outras indústrias que estão causando a destruição do mundo natural, e adotar políticas que se compactuam com as necessidades humanas enquanto conservam a saúde do planeta.

Cada ano, governos de economias grandes ou emergentes fornecem US$345 bilhões em subsídios agrícolas potencialmente prejudiciais, de acordo com o OECD. Um relatório de 2019 descobriu que o público fornece mais de US$1 milhão por minuto para o uso excessivo de fertilizantes, desflorestamento para a expansão das fronteiras agrícolas e criação de gado.

A falha em remover esses subsídios foi uma das 20 metas de biodiversidade que o governo de Aichi falhou em cumprir, e Mrema afirmou que a comunidade internacional precisa levar isto a sério junto com o aumento de áreas protegidas.

“A população humana está crescendo. Isso é um fato. E estatísticas indicam claramente que nós precisamos de mais comida e recursos. Tudo isso pode ter um impacto na biodiversidade,” ela anunciou. “Há recursos – particularmente subsídios insustentáveis – o que poderia ser redirecionado a operações mais verdes.”

“Não é apenas a produção de alimentos. É a produção agrícola. Será que nós nos perguntamos: essa camisa que estou comprando, ela é feita de algodão sustentável? Os móveis que tenho em casa, são feitos de madeira sustentável?” Mrema adiciona.

Os comentários surgem no momento em que negociações no estilo parisiense em prol da natureza recomeçam na segunda-feira, após meses de atraso devido à pandemia. Num árduo calendário, delegações e especialistas se encontrarão virtualmente seis dias na semana por três horas até 13 de Junho para conversas sobre os elementos científicos e financeiros do acordo. Em Outubro, negociações finais estão marcadas para acontecer em Kunming, China, para discutir um acordo nas metas de biodiversidade para esta década.

O Brasil foi acusado de tentar obstruir procedimentos pela sua oposição às negociações online, levantando a preocupação de que erros de conexão com a internet podem deixar nações em desenvolvimento em desvantagem. O Guardião entende que um esforço diplomático chinês por trás das câmeras encorajou o Brasil e outros a fazerem parte de negociações no entendimento de que isso não abre um precedente.

Li Shuo, um consultor político da Greenpeace China, afirmou que o governo chinês está empenhado em garantir o sucesso das negociações e pediu a Beijing que resolvesse quaisquer problemas maiores em Kunming ainda este ano.

“O governo chinês trabalhou duro em primeiro lugar para conseguir hospedá-los. Eles genuinamente queriam projetar uma imagem mais verde,” Li disse. “Uma coisa que as pessoas realmente precisam entender é que, em comparação com as negociações sobre o clima, Kunming é mais vulnerável a mudanças impostas pela pandemia. O resultado requer negociações multilaterais desde o começo.”

“Nos próximos meses, será muito importante identificar os pequenos problemas cruciais que provavelmente não serão resolvidos até as últimas 48 horas de Kunming. Eles precisam utilizar energias políticas para tentar resolver esses problemas,” Li adicionou.

Antes das negociações, os CEOs das maiores organizações de conservação – incluindo a WWF, Birdlife International e o World Resources Institute – estão alertando os governos a concordar com metas focadas para a natureza em Kunming que o público e as empresas possam apoiar, semelhante ao objetivo do acordo de Paris para manter o aquecimento global abaixo de dois graus.

Existem medos que os quatro objetivos e as 20 metas do proposto acordo de Kunming são muito disparates, abrangendo ações sobre pesticidas, poluição de plástico, espécies invasivas e áreas protegidas, e devem ser resumidas em um simples, facilmente reconhecido objetivo: atingindo um mundo ambientalmente correto.

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De olho no planeta

Sri Lanka irá proibir importações de óleo de palma para proteger o meio ambiente

Sri Lanka impôs uma banição nas importações de óleo de palma e pediu que as plantações da árvore no país fossem substituídas por Seringueiras e outras colheitas na próxima década, citando impactos desfavoráveis e sociais.

A decisão é baseada em recomendações de um relatório de 2018 de um painel de especialistas ambientais, que ligaram plantações de óleo de palma á erosão de solo e esgotamento das fontes de água.

Diferente de outros países onde a colheita está crescendo, Dendezeiros não são percursores do desmatamento em Sri Lanka; Ao invés disso, eles substituíram Seringueiras, que acolhem um alto nível de biodiversidade e promove mais empregos locais.

Outra preocupação é que os Dendezeiros estão se tornando espécies invasivas, desenvolvendo impactos na fauna e flora na natureza das reservas florestais.

Foto: Asoka Nugawela

Ambientalistas saudaram a decisão surpresa do governo do Sri Lanka de banir as importações de óleo de palma no país e destruir as existentes plantações, mas outros dizem que a ciência que justifica a mudança é infundada.

O governo fez um anuncio no dia 05 de abril citando recomendações de um painel de especialistas formados no CEA – Autoridade Ambiental Central. O painel identificou erosão de solo e secagem de nascentes como um dos impactos potencialmente irreversíveis na biodiversidade da ilha e no sustento das comunidades locais. No relatório, publicado em 2018, contém diversas linhas citando recomendações para criar uma fundação para a proibição do cultivo de Dendezeiros na ilha.

Gamini Hitinayake, um membro do painel de especialistas e professor da Faculdade de Agricultura na Universidade de Paradenyia, disse que a proliferação de dendezeiros ameaçou espécies de plantas e animais nativas. “O dendê é uma ameaça à existência de todas as plantações tradicionais, como borracha, chá e coco, que são muito mais ecológicas”, disse ele ao Mongabay.

Espécies invasivas

Siril Wijesundara, ex-diretor geral do Departamento de Jardins Botânicos e membro de uma equipe que documenta espécies de plantas exóticas invasoras no Sri Lanka, disse que dendezeiros foram encontradas crescendo naturalmente na reserva florestal Indikada Mukalana, no oeste do país.

“O dendê já mostra sinais de se tornar uma espécie invasora no Sri Lanka”, disse ele ao Mongabay. “Como medida de precaução para evitar que o dendê se torne uma (espécie) invasora, é importante prevenir a regeneração natural das sementes de dendê dentro e adjacentes (às) plantações de dendê.”

Introduzido no Sri Lanka em 1968, o dendê africano (Elaeis guineensis) não tem um polinizador natural aqui. Assim, o gorgulho-dendê africano (Elaeidobius kamerunicus) também foi trazido para o país. Embora não haja relatórios documentados de impactos negativos associados ao besouro, mais pesquisas precisam ser feitas sobre ele, disse Jayantha Wijesinghe, da ONG ambiental local Rainforest Protectors of Sri Lanka.

Preocupações com a água

Hitinayake disse que outra das principais preocupações sobre o cultivo de dendezeiros é que a árvore absorve muita água e poderia secar as fontes locais. O Dendezeiro é uma árvore de rápido crescimento, assim então consume uma alta taxa de água, principalmente durante o estágio de crescimento, Hitinayake disse.

Outro problema que o painel de especialistas reportou em destaque foi que as plantações de óleo de palma não possuem uma vegetação rasteira, elas são estritamente monocultivas, então não suportam biodiversidade. Em contraste, as plantações mais comuns de Seringueiras suportam um alto nível de biodiversidade. Pesquisas recentes mostram que os pangolins indígenas (Manis crassicaudata), ameaçados de extinção, preferem as plantações de borracha como seu habitat principal, depois das florestas.

Mas as plantações de seringueiras desapareceram para dar lugar aos dendezeiros desde que estes foram introduzidos pela primeira vez aqui. Ao contrário da maioria dos outros países onde o dendê é cultivado, notadamente os principais produtores Indonésia e Malásia, o cultivo comercial da safra não gerou desmatamento em grande escala no Sri Lanka. Em vez disso, assumiu as plantações de seringueiras, com o auxílio de concessões fiscais para a importação de sementes e outros incentivos do governo.

O que fez nascer outra reclamação, sobre o impacto social das plantações de óleo de palma. Cultivar e colher a safra não é tão trabalhoso quanto a borracha ou outras safras, incitando medos e protestos dos trabalhadores de plantações de borracha das vilas locais sobre uma perda de meio de vida.

Violações de plantio

Existem aproximadamente 11 mil hectares de dendezeiros plantados pelo Sri Lanka. Mas em muitos casos, os plantadores violam as diretrizes básicas emitidas para o cultivo”, disse Wijesinghe.

Ele observou que é proibido plantar dendezeiros em encostas mais íngremes do que 30 graus, mas em alguns lugares, eles são cultivados em encostas mais íngremes do que 60 graus. Também há uma proibição de plantar em pântanos ou nas margens de rios, mas isso também é frequentemente violado, disse Wijesinghe.

Sob a nova postura do governo sobre o óleo de palma, todas as importações serão proibidas. O país compra cerca de 200.000 toneladas métricas de óleo vegetal anualmente, principalmente da Malásia. A nova política também prevê a destruição de 10% da área plantada com dendê a cada ano e o replantio com borracha e outras culturas que requerem menos água.

Argumento ‘infundado’

O retrocesso ao anúncio foi imediato. Asoka Nugawela, professora emérita da Faculdade de Agricultura da Universidade Wayamba, contestou a sugestão do painel de especialistas do CEA de que as plantações de dendezeiros poderiam secar as fontes de água locais.

Ele disse que o dendê no Sri Lanka é geralmente cultivado em áreas onde a precipitação anual excede 3.500 milímetros, enquanto a necessidade de água é de cerca de 1.300 mm. Portanto, o argumento de que eles podem fazer com que as molas sequem não é verdade, disse Nugawela.

“Se você visitar as plantações de dendezeiros, poderá testemunhar riachos saudáveis ​​e cheios de vida”, disse ele ao Mongabay.

Ele observou que a propriedade Nakiyadeniya, a primeira plantação de dendê no Sri Lanka, está em operação há mais de 50 anos, sem nenhum sinal de problemas de água na área. Um estudo de 2018 descreveu uma nova espécie de peixe de água doce em um riacho em Nakiyadeniya; Nugawela disse que isso prova que os riachos que secam o argumento são infundados.

Ele disse que a mudança climática é um fator mais provável de impactar a disponibilidade de água, com os padrões de chuva se tornando mais erráticos. Ele também disse que a questão da erosão do solo é um problema de gestão para o qual existem medidas corretivas que podem ser tomadas.

A Associação da Indústria do Óleo de Palma do Sri Lanka também rejeitou as recomendações do painel de especialistas que justificam a proibição e questionou a ciência. Ele diz que as empresas têm investido pesadamente no cultivo de dendezeiros com o incentivo de sucessivos governos e vão apelar contra a proibição.

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De olho no planeta

Extração de madeira destrói habitat de animais ameaçados

Foto: Pixabay

Uma agência florestal do governo de Victoria venceu uma apelação contra uma decisão judicial histórica que concluiu que ela violou repetidamente os regulamentos de conservação durante a extração de madeira no planalto central do estado.

A bancada completa do tribunal federal na segunda-feira anulou um julgamento que, no ano passado, concluiu que a VicForests havia violado um código de prática relacionado a um acordo florestal regional entre os governos federal e estadual. Portanto, perdeu seu direito de ser isento das leis ambientais nacionais.

O julgamento de maio de 2020 da justiça Debra Mortimer concluiu que a extração de madeira da VicForests não estava de acordo com o RFA, já que estava destruindo o habitat crítico para duas espécies ameaçadas – marsupiais das família Petauridaes e Pseudocheiridae em perigo crítico.

A decisão gerou apelos para uma revisão da isenção de toda a indústria para a exploração madeireira da Lei federal de Proteção Ambiental e Conservação da Biodiversidade (EPBC) sob os termos dos RFAs em quatro estados.

Em seu julgamento na segunda-feira, o tribunal considerou que o julgamento inicial – incluindo que a VicForests violou o código de prática por não cumprir o princípio da precaução em algumas florestas – era factualmente correto.

Mas descobriu que a exploração madeireira da VicForests estava isenta das leis ambientais nacionais, mesmo que não estivesse em conformidade com o RFA.

O grupo conservacionista dirigido por voluntários que abriu o caso, Friends of the Leadbeater’s Possum, disse que planejava apelar ao tribunal superior e solicitaria a manutenção de liminares para impedir a extração de madeira até que o caso fosse ouvido.

O presidente do grupo, Steve Meacher, disse que a avaliação foi “muito decepcionante”.

“A extração de madeira em florestas nativas está matando espécies ameaçadas e destruindo seu habitat crítico”, disse ele. “Esta batalha ainda não acabou.”

A VicForests disse que ficou satisfeita com o fato de o tribunal ter aceitado seu argumento de que a silvicultura sob os RFAs era administrada por regimes estaduais e não precisava ser aprovada pelas leis nacionais. O RFA exige que a VicForests forneça um plano de manejo que “equilibre” o impacto ambiental e econômico da exploração madeireira.

Mortimer descobriu que a extração de madeira em 26 golpes não cumpria o código de prática e a extração planejada de outros 41 golpes provavelmente não obedeceria.

Nicola Rivers, co-presidente executivo da Environmental Justice Australia, que representou o grupo de conservação, disse que o último julgamento confirmou que a extração de madeira da VicForests destruiu habitat crítico para espécies em alto risco de extinção, levou ao declínio do marsupial da família Petauridaes e pode ter matado centenas de planadores maiores ameaçados.

“O tribunal decidiu que essas operações estão isentas das leis ambientais federais destinadas a proteger essas mesmas espécies”, disse ela.

Uma revisão independente, uma vez em uma década, da Lei EPBC pelo ex-chefe de fiscalização da concorrência Graeme Samuel no ano passado concluiu que as leis ambientais estavam falhando e que a isenção efetiva concedida à extração de madeira nativa deveria ser abolida. O governo ainda não respondeu formalmente à recomendação de Samuel.

A líder do Senado Nacional, Bridget McKenzie, apresentou um projeto de lei de um membro privado para reforçar a isenção da extração de madeira de florestas nativas das leis ambientais em resposta à decisão do tribunal federal do ano passado. O ministro do Meio Ambiente, Sussan Ley, disse por meio de um porta-voz que o projeto de lei de McKenzie não era uma política governamental.

A Australian Forest Products Association disse que a decisão do tribunal foi uma “vitória histórica para as indústrias florestais nativas sustentáveis da Austrália”, que confirmou que os RFAs “fornecem todas as proteções ambientais exigidas pelas leis ambientais nacionais”.

“A decisão de hoje oferece certeza para a indústria madeireira nativa de Victoria e, de fato, para os trabalhadores da indústria florestal em todo o país”, disse o presidente-executivo da associação, Ross Hampton,

Mas a Wilderness Society disse que o tribunal rejeitou 30 dos 31 fundamentos apresentados pela VicForests e confirmou a conclusão de que suas atividades madeireiras representavam uma ameaça de extinção para as duas espécies.

“Dado que todos os fundamentos, exceto um, foram confirmados, a decisão do tribunal de extração ilegal de madeira sob a lei vitoriana permanece”, disse a diretora de campanhas nacionais da sociedade, Amelia Young. “O resultado de hoje não muda o risco sistêmico de ilegalidade que existe nessas cadeias de abastecimento e confirma que as leis ambientais nacionais precisam desesperadamente de reforma para proteger os animais da floresta em extinção.”

Young apelou aos “fabricantes, processadores, varejistas e consumidores de madeira, papel e produtos de embalagem” feitos de madeira extraída pela VicForests para boicotar seus produtos, e o governo de Victoria a apresentar seu plano de eliminação progressiva da silvicultura nativa até 2030. O governo do estado foi contatado para comentar o assunto.

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De olho no planeta

Indústria global de energia renovável cresce na taxa mais rápida desde 1999

Foto: Pixabay

A indústria mundial de energia renovável cresceu em seu ritmo mais rápido desde 1999 no ano passado, apesar da interrupção causada pela pandemia de Covid-19, e pode ter estabelecido um padrão de crescimento no futuro, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA).

A agência internacional de energia revelou que a entrega de projetos de energia renovável, incluindo parques eólicos e projetos de energia solar, cresceu 45% no ano passado, em uma mudança radical para a indústria global.

A capacidade de energia eólica dobrou no último ano, enquanto a energia solar cresceu quase 50% a mais do que seu crescimento antes da pandemia, devido ao crescente apetite por energia limpa de governos e corporações.

O aumento recorde em energia renovável no ano passado deve se tornar o novo normal [titulo do gráfico]

O boom de energia limpa levou a IEA a revisar suas previsões de energia renovável para os próximos anos em cerca de 25% em relação às estimativas de crescimento anteriores, devido à expansão mais rápida do que o esperado das energias renováveis ​​na China, Europa e Estados Unidos.

Fatih Birol, o diretor executivo da IEA, disse que os governos precisam “aproveitar este momento promissor”, colocando em prática políticas que “encorajem um maior investimento em energia solar e eólica, na infraestrutura de rede adicional que exigirão, e em outras fontes renováveis tecnologias como hidrelétricas, bioenergia e geotérmica”.

“Uma expansão massiva da eletricidade limpa é essencial para dar ao mundo uma chance de atingir suas metas líquidas de zero”, acrescentou Birol.

A China continua no centro do crescimento da indústria de energia renovável, após ter respondido por mais de 40% do crescimento global do mercado nos últimos anos. É também um dos maiores fornecedores das matérias-primas necessárias para fazer turbinas eólicas e painéis solares, incluindo silício, vidro, aço, cobre e outros materiais de terras raras.

No entanto, a China também é o maior emissor mundial de gases de efeito estufa devido ao uso de usinas termelétricas a carvão para atender à crescente demanda de energia do país.

O presidente do país, Xi Jinping, prometeu que a China se tornará neutra em carbono até 2060, mas especialistas alertaram que será necessário desenvolver energia renovável suficiente para fechar quase 600 de suas usinas movidas a carvão nos próximos 10 anos para atender este alvo.

É esperado que, a passagem de um prazo chave para subsídios estatais para industrias na China, irá fazer com que o crescimento em energia renovável do país desacelere nos próximos anos. Mas a IEA acredita que a crescente demanda por energia limpa na Europa e nos EUA manterá o crescimento anual da indústria global próximo ao nível do ano passado.

Heymi Bahar, o principal autor do relatório da IEA, descreveu o boom das energias renováveis ​​do ano passado como “sem precedentes” porque, embora tenha correspondido à taxa observada pela última vez em 1999, a indústria se tornou muito maior nas últimas duas décadas.

Ele disse que os níveis recordes de leilões do governo para novos projetos de energia renovável combinados com um número crescente de empresas que buscam mudar para as energias renováveis ​​impulsionaram o “aumento excepcional”, que deve se tornar “o novo normal para as energias renováveis”.

“O ímpeto vem das empresas e do governo”, acrescentou.

As últimas previsões da IEA não levam em consideração o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, cuja administração deve estimular uma taxa ainda mais rápida de crescimento das energias renováveis. Biden prometeu cortar as emissões dos EUA pela metade nos próximos 10 anos.

No Reino Unido, o crescimento da indústria eólica offshore está previsto para representar um quarto da capacidade eólica offshore do mundo até 2022, tornando-o o único país do mundo a ter mais energia eólica gerada em sua costa do que em suas terras.

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