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Veterinária arrecada fundos para transformar ONG em ‘complexo de assistência aos animais’

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Um sonho de criança motivou Amanda Luiza a escolher o curso de Medicina Veterinária. Mas exercer a profissão sem usar seus conhecimentos para auxiliar animais em situação de vulnerabilidade nunca brilhou os olhos da profissional, que hoje luta para transformar a ONG Casa Multipatas em “um complexo de assistência aos animais no Nordeste do Brasil”, como ela mesma define o projeto em um site de financiamento coletivo.

Para Amanda Luiza, que é vegana e batalha por uma medicina veterinária livre de testes em animais, a defesa animal e a vida profissional se fundiram. Não é atoa que seu desejo é exercer a profissão com foco voltado “a atividades de cunho social”.

Para realizar esse sonho, Amanda nutre a esperança de construir uma verdadeira corrente de solidariedade por meio da qual seriam feitas doações mensais a serem usadas para o custeio da formalização da ONG. Para conhecer melhor o projeto, confira abaixo a íntegra da entrevista que a veterinária concedeu à ANDA.

ANDA: O que te motivou a ser uma voluntária da causa animal?

Amanda Luiza: Desde pequena gostava de animais, sofria ao ver minha avó matando galinhas. Ia pra casa da outra avó cuidar das cadelinhas dela. Desde pequena eu dizia que queria ser veterinária por achar que era profissão totalmente dedicada ao cuidado com animais, mas não foi bem isso quando eu finalmente entrei na faculdade e conto um pouco disso em alguns vídeos no meu canal do YouTube.

ANDA: Seu voluntariado começou na faculdade de medicina veterinária ou você já auxiliava animais abandonados – alimentando-os ou resgatando-os, por exemplo – antes de entrar na universidade?

Amanda Luiza: Eu comecei uma faculdade de farmácia e lá tinha muitos gatinhos abandonados. Cheguei a levar dois gatinhos pra casa, não tinha noção de cuidados e nunca tinha cuidado de gatos antes. Desisti do curso de farmácia e fiz vestibular para medicina veterinária. Nessa mesma época eu estava me mudando para uma casa grande e resgatei minha primeira cadelinha sem raça definida. Ela se chama Pilanha e está muito doente com Leishmaniose visceral canina (calazar) , doença muito comum aqui no nordeste. Comecei a faculdade e no campus tem um histórico de abandono muito triste e comecei a alimentar, resgatar. Hoje sou casada e tutelamos 28 animais resgatados e todos com uma história triste de abandono e maus-tratos.

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ANDA: O que te levou a cursar medicina veterinária?

Amanda Luiza: Um sonho de criança.

ANDA: Como surgiu a ideia de criar a ONG Casa Multipatas e por que esse foi o nome escolhido para a entidade?

Amanda Luiza: Exercer minha profissão mais voltado a atividades de cunho social. Casa Multipatas fala muito sobre o que eu faço na minha vida. “Casa” local de acolhimento e “Multipatas” por me importar com todas as espécies de animais. Esse nome representa todo o meu trabalho e missão. A formalização da ONG surgiu no momento que amadureci meu trabalho em medicina de abrigos durante a pandemia. Estamos há um ano atuando com animais ferais, comunitários e de abrigos. Com apoio da The Pollination Project, que nos financiou com mil dólares ano passado e da Veg Vets, que nos ajudou na formalização e compra de equipamentos pra minha clínica veterinária, Casa Multipatas também que dá suporte ao trabalho do projeto durante esse ano.

ANDA: Analisando o cenário pandêmico, de que maneira a pandemia de coronavírus prejudicou os cães e gatos?

Amanda Luiza: A pandemia trouxe junto crise econômica acentuada, locais fechados, rações e insumos com preços elevadíssimos. Os abrigos estão cada vez mais passando por dificuldade para manter os animais e proporcionar atendimento veterinário. Animais comunitários não encontram ponto de alimentação fácil, estão procriando nas ruas. Diante disso, começamos o atendimento veterinário a animais comunitários e abrigos de Fortaleza-CE em abril de 2020.

Além disso, fazemos CEVD (castração, esterilização, vacinação e devolução) de gatos ferais em duas colônias em Fortaleza-Ce. Mantenho comigo em torno de 25 animais (maioria gatos), cães e uma ovelha.

ANDA: Desde quando você é vegana e como teve início seu ativismo em prol do veganismo?

Amanda Luiza: Desde segundo semestre de 2012. Meu ativismo se chocou muito com a graduação, que é rica em produção animal. Continuam pouco no primeiro vídeo do canal do YouTube. Deixei de ir a algumas aulas práticas, a faculdade foi muito sofrida e de muita luta pelos animais.

ANDA: De que maneira você relaciona sua profissão e o voluntariado em prol dos cães e gatos com o ativismo vegano?

Amanda Luiza: O atendimento de cães e gatos é maior, pois os abrigos contém mais essas espécies. Mas contamos com atendimento de grandes animais e pequenos ruminantes com a ajuda de uma amiga Veterinária, Camila Goersch aqui de Fortaleza. Ela já atendeu porco, jumentos e ovinos juntamente comigo em visitas nos abrigos.

ANDA: Há relação entre o seu projeto com a Shelter Medicine dos Estados Unidos? Você se inspirou de alguma forma na Medicina de Abrigos norte-americana?

Amanda Luiza: Sim, me baseio na Shelter Medicine que é uma área da veterinária que atua com populações de animais. Visando atendimento em várias áreas: clínica, cirurgia, anestesia, comportamento de animais vulneráveis, quer seja em abrigos, animais comunitários ou ferais. Tenho aprendido sobre essa área com uma amiga mentora Isabelle Tancioni, que vivencia essa área em abrigos de coelhos em San Diego.

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ANDA: Qual é a realidade dos animais abandonados em Fortaleza? É grande o número de cães e gatos em situação de rua?

Amanda Luiza: Há muito abandono e muitos animais na ruas, principalmente em periferias. Há uma desigualdade social enorme, falta de instrução e recursos para si próprios e para manter a saúde dos animais. Durante a crise sanitária e econômica e pouco auxílio do Estado a situação dos animais tendem a piorar. Atendemos animais de pessoas vulneráveis. Pessoas pobres, negras, idosas e LGBTs. Quanto mais é a vulnerabilidade social, mais a vulnerabilidade animal.

Lidamos com algumas situações de violência familiar, onde os animais são afetados também. E não só a violência do marido contra a esposa, mas também a violência do pai que não aceita um filho LGBT, por exemplo. E os animais envolvidos nessa cadeia de violência e opressão.

ANDA: O dinheiro arrecadado através da campanha de financiamento coletivo feita para custear o projeto da ONG Casa Multipatas será investido como?

Amanda Luiza: O dinheiro arrecado através da apoia-se será destinado a formalização da ONG, que requer o pagamento de várias taxas e custos mensais, além de compra de insumos, medicamentos, rações, equipamentos veterinários etc, que são custos altos e fixos.

ANDA: O que você diria para incentivar simpatizantes da causa animal a doar para o seu projeto?

Amanda Luiza: É um projeto pioneiro no nordeste do Brasil e idealizado por uma médica veterinária que vinculou sua trajetória profissional em prol dos animais.

ANDA: Podem ser feitas doações de qualquer quantia? Há um valor mínimo?

Amanda Luiza: Temos apoiadores mensais com o valor de 3 reais. Então, qualquer valor pode ser doado no link da campanha e se tornar um colaborador mensal.

ANDA: As doações são pontuais ou quem doar será cadastrado para que o valor seja doado todo mês para o projeto? Quais são as formas de doação (exemplo: transferência bancária, PIX, crédito, débito, boleto)? 

Amanda Luiza: As doações pelo link da campanha são mensais e lá temos uma rede de contato através de mensagens e postagens que os apoiadores vão interagindo com o projeto. Para quem não pode ou prefere outras formas de doação pode ser entrar em contato pelo email: casamultipatas@gmail.com, whatapps (85)987594180 ou Instagram: @vetamandaluiza.

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Entrevistas

Juiz federal publica estudo sobre a possibilidade de animais serem autores de ações judiciais

Dentre os direitos inerentes aos animais está a possibilidade de ser autor de uma ação judicial (Foto: Freepik)

Professor adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), docente do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Direito da UFPR, Doutor e Mestre em Direito Processual Civil pela UFPR, Pós-Doutor em Direito Animal pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Coordenador do Programa de Direito Animal da UFPR, Pesquisador Líder do Zoopolis – Núcleo de Pesquisas em Direito Animal do PPGD da UFPR e Juiz Federal
em Curitiba (PR), o Dr. Vicente de Paula Ataíde Junior tem um extenso histórico não só no meio jurídico, mas também na luta em prol dos animais.

Referência acadêmica no Brasil na área do Direito Animal, recentemente o Dr. Vicente de Paula publicou o estudo “O Decreto nº 24.645/1934 e a Capacidade de Ser Parte dos Animais no Processo Civil” para abordar a possibilidade de animais serem autores de ações judiciais.

Com o crescimento acelerado da luta em prol dos direitos animais, vem aumentando também o número de processos na Justiça que têm em seu polo ativo cachorros ou gatos. É o caso de Chaplin, citado pelo juiz federal em seu estudo. O cachorro, representado por seus tutores, pleiteia desde agosto de 2020 impedir constrangimento ilegal que vem sofrendo no condomínio onde vive, para poder ter livre acesso pela entrada principal e pelas demais dependências. A ação foi protocolada na 5ª Vara Cível de João Pessoa (PB).

No artigo, o Dr. Vicente de Paula enumera 11 ações judiciais nas quais animais figuram como autores. Segundo ele, “em algumas dessas ações, a presença dos animais como autores foi prontamente rechaçada pelos juízes estaduais de primeiro grau. Noutras, o processo teve seguimento, com a citação do réu e, até mesmo, audiência de conciliação”. O professor lembrou ainda que não houve “nenhuma sentença definitiva até o momento” e que “apenas três dessas ações têm recursos pendentes em Tribunais de Justiça”.

O Dr. Vicente de Paula é uma referência acadêmica no Brasil na área do Direito Animal (Foto: Reprodução)

Diante dessa nova realidade para o Poder Judiciário, o juiz federal deu a sua contribuição para o fomento das discussões acerca do tema através de seu estudo, que inicia com uma revisão dos conceitos fundamentais do processo civil sobre a capacidade de animais serem autores de ações judiciais. No artigo, o Dr. Vicente de Paula explica ainda que os animais detêm capacidade inafastável de ser parte nos processos por possuírem direitos próprios e positivados no Brasil e por serem respaldados pela garantia constitucional do acesso à Justiça.

O art. 2º, § 3º, do Decreto nº 24.645/1934, que dá nome ao estudo, também é abordado no artigo por ser, segundo o professor, “a base normativa que estabelece, no Brasil, os responsáveis para suprir a incapacidade processual dos animais”. Ao final do estudo, o Dr. Vicente de Paula demonstra as vantagens pragmáticas “de se atribuir capacidade de ser parte aos animais, em especial a judicialização do Direito Animal”.

Para expor as motivações do juiz por trás do estudo, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) publica abaixo uma entrevista exclusiva com o Dr. Vicente de Paula Ataíde Junior. Confira.

ANDA: O que te levou a realizar o estudo?

Vicente de Paula Ataíde Junior: O ano de 2020 foi o ano da primeira onda da judicialização estrita do Direito Animal no Brasil, com várias ações nas quais animais se apresentaram como autores de demandas judiciais, representados por humanos ou por entidades. A questão principal discutida nessas ações foi a capacidade de ser parte dos animais, ou seja, podem os animais serem autores de ações judiciais?

ANDA: No texto do estudo, você afirma que o Direito Animal está cada vez mais presente nas universidades. Há, de fato, instituições que já oferecem cursos sobre o tema e muitos advogados que atuam nessa seara. De que forma você avalia esse crescimento? O que contribuiu para que as universidades começassem a despertar para esse assunto?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Essas faculdades de direito que contemplam o Direito Animal no seu currículo o fazem, quase sempre, porque têm professores que, de alguma forma, já conhecem o tema e escrevem sobre ele. Por isso é importante que os professores de Direito Animal cobrem que suas instituições de ensino abram espaço para a nova disciplina. Não apenas como cursos esporádicos, mas como disciplinas integradas ao currículo pleno, ainda que como optativas. Além disso, é sempre importante afirmar que o Direito Animal é disciplina autônoma em relação ao Direito Ambiental.

ANDA: No estudo, você afirma que “os animais não são coisas, nem máquinas sem alma: são seres vivos dotados de consciência e de senciência”. Você acredita ser possível que todos os animais – incluindo os silvestres, explorados para lucro de maneira legal e ilegal, os que sofrem em experimentos laboratoriais e aqueles explorados para consumo humano – sejam contemplados no futuro pela concepção que você apresenta no estudo?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Sim, acho que é um processo civilizatório inevitável. A velocidade da implementação dessa nova realidade depende de inúmeros fatores – a tecnologia de substituição da proteína animal, por exemplo. O Direito Animal tem muito para contribuir para esse processo, na medida que o processo judicial é um instrumento de inclusão moral.

ANDA: Condomínios, empresas e órgãos públicos podem ser parte de uma ação, mas animais não têm essa autorização. Qual sua opinião sobre isso?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Essa é uma incongruência que deve ser superada em breve. Por isso escrevi esse e outros artigos a respeito.

ANDA: Qual é a razão, na sua opinião, para que seres humanos considerados incapazes – como as crianças e os adolescentes, o nascituro, os humanos incapazes de exprimir sua vontade – possam ser parte de uma ação e os animais não?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Especismo! Negar capacidade de ser parte aos animais é especismo, uma vez que o Direito Animal brasileiro reconhece que os animais são sujeitos de direitos.

ANDA: A permissão para que animais façam parte das ações poderia provocar uma conscientização da sociedade, a médio e longo prazo, acerca dos direitos animais?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Exatamente: o processo é instrumento de inclusão moral.

ANDA: No estudo, você aborda a “judicialização terciária ou judicialização estrita do Direito Animal, por meio da qual os animais defendem seus direitos em juízo, assistidos na forma do art. 2º, § 3º, do Decreto nº 24.645/1934”, e enumera ações judiciais nas quais os animais figuram no polo ativo. De que forma você vê a atuação dos magistrados que deram prosseguimento às ações, sem exigir a retirada dos animais do polo ativo da ação? Como a postura desses juízes pode influenciar outros membros da comunidade jurídica a olhar para os animais como parte dos processos?

Vicente de Paula Ataíde Junior: Essa é a posição judicial mais prudente: antes de decidir um tema tão novo e polêmico, melhor é instaurar o contraditório e ampliar o debate, podendo-se estudar melhor e aprofundar a reflexão. O TJPR fez isso também, para não julgar esses casos de forma açodada. Aguardamos uma decisão mais serena e refletida.

Para ter acesso ao estudo na íntegra, clique aqui.

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Eurodeputado defende que a União Europeia não importe produtos ligados ao desmatamento

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O eurodeputado Francisco Guerreiro (Verdes/ALE) defendeu, em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), que sejam reabertas as negociações sobre os problemas ambientais no acordo da União Europeia com o Mercosul.

Na opinião do parlamentar, que é vegano e defensor das causas ambientais, há questões relacionadas à preservação da natureza que devem constar no acordo, como as alterações climáticas e emissões de CO2, a preservação e restauração da biodiversidade, incluindo o combate ao desmatamento na Amazônia.

Guerreiro afirmou ainda que a União Europeia deve boicotar produtos que tenham relação com o desmatamento e se opôs à postura do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), que é contra a preservação do meio ambiente. O eurodeputado afirmou que não parece possível que “alguém que ignora (e não entende) a ciência” mude de posicionamento por conta da reabertura das negociações sobre problemas ambientais, mas disse que essa situação poderia forçar Bolsonaro “a aceitar condições mais fortes relativamente aos aspectos ambientais do acordo, para poder fazer negócios com a UE”.

Esses e outros assuntos relativos ao meio ambiente foram tratados pelo parlamentar na entrevista concedida à ANDA. Confira abaixo na íntegra.

ANDA: Qual a importância de reabrir as negociações sobre os problemas ambientais e de que maneira isso deve ser feito? 

Francisco Guerreiro: Na nossa opinião, as negociações sobre vários, ou mesmo todos os capítulos devem ser reabertas integralmente. Evidentemente, todas as partes têm de aceitar fazê-lo e será necessário mais tempo para se alcançar um eventual acordo. No entanto, acreditamos que disposições fortes e juridicamente vinculativas sobre questões como as alterações climáticas e emissões de CO2, a preservação e restauração da biodiversidade, incluindo o combate à desflorestação na Amazônia, devem obrigatoriamente constar no texto base. A Comissão Europeia (e pelo vistos alguns Estados Membros) está neste momento a discutir alguns “compromissos adicionais” com o governo do Brasil relativamente a alguns destes temas. Para nós, estes compromissos só serão satisfatórios, se forem suficientemente robustos, legalmente vinculativos e se estiverem ligados ao corpo do texto principal. Não é o ideal, mas é a segunda melhor opção nesta fase.

ANDA: Como o debate sobre a agenda ambiental no acordo UE-Mercosul pode auxiliar no combate ao desmatamento no Brasil? 

Francisco Guerreiro: Idealmente, se conseguirmos suspender este acordo, pelo menos na sua forma atual devido às inúmeras preocupações ambientais, isto já abrandaria possivelmente a desflorestação para a pecuária e soja no Brasil. Além disso, as ONG e atores locais (por exemplo, os partidos da oposição) podem beneficiar com isto. A não conclusão de um acordo comercial prejudicial para o ambiente pelo atual Presidente brasileiro enviaria um sinal forte a todos de que estamos a levar estas problemáticas a sério, e que a manutenção do status quo (em termos de comércio internacional) já não constitui uma opção.

ANDA: Peritos concluíram que as exportações de carne de boi resultantes do acordo UE-Mercosul farão o desmatamento na região do Mercosul aumentar em 25% num período de seis anos após a ratificação do acordo. Como a reabertura das negociações sobre questões ambientais pode agir contra a devastação ambiental causada pela agropecuária? 

Francisco Guerreiro: Para nós, é necessário reabrir as negociações, uma vez que muitos aspectos do texto carecem de políticas claras e eficazes em matéria de protecção ambiental e de garantias de sustentabilidade. De facto, ao reabrir as negociações, poderíamos exigir medidas vinculativas e sancionáveis, consagradas no acordo comercial. Por exemplo, o “princípio de não causar danos” deve ser respeitado: se não temos a certeza (ou se temos provas) em relação às consequências do comércio de um determinado bem, sem ou com baixa taxa de importação (como a carne de bovino ou a soja), não devemos incluí-lo, ou pelo menos restringi-lo, controlando a situação de perto (forçando a introdução ou melhorias na rastreabilidade, por exemplo). Também temos de nos assegurar de que nenhum produto ligado à desflorestação e às violações dos direitos humanos no estrangeiro entre no mercado único.

Com a diminuição da procura, em teoria o negócio da pecuária não se expandirá mais.

É claro que também teríamos de regular e controlar o que as empresas da UE estão a fazer no estrangeiro e como estão a investir. A reabertura das negociações enviaria ainda um sinal forte à região do Mercosul e ao mundo, indicando que a UE já não está disposta a assinar acordos de comércio livre, se estes forem prejudiciais para os ecossistemas (e a biodiversidade) e as alterações climáticas. Demonstraria também coerência com as nossas próprias estratégias e objectivos internos da UE (Farm to Fork, EU Green deal, Biodiversity Strategy).

A desflorestação em todo o mundo está directamente ligada à política comercial da UE, dado que a região é o principal importador de produtos provenientes de áreas ilegalmente desmatadas. Em 2012, a UE importou montantes equivalentes a cerca de 6 mil milhões de euros de soja, carne, couro e óleo de palma provenientes de terras desflorestadas ilegalmente em florestas tropicais de todo o mundo. Esta soma representa cerca de um quarto do total do comércio mundial destes produtos. A UE e os consumidores europeus são os principais importadores per capita de bens promotores de desflorestação.

ANDA: O Brasil, que integra o Mercosul, atualmente tem em sua presidência Jair Bolsonaro, um político conhecido por seu desprezo às causas ambientais. É possível modificar a postura do presidente, fazendo-o combater o desflorestamento, através da reabertura das negociações sobre problemas relativos ao meio ambiente? 

Francisco Guerreiro: Ficaríamos muito satisfeitos se a reabertura das negociações tivesse uma influência positiva junto do Presidente do Brasil. Infelizmente, não nos parece que alteraria substancialmente a opinião de alguém que ignora (e não entende) a ciência. Esta situação poderia, no entanto, forçá-lo a aceitar condições mais fortes relativamente aos aspectos ambientais do acordo, para poder fazer negócios com a UE.

ANDA: A falta de uma política sólida de preservação ambiental no Brasil interfere de alguma forma nas relações entre o país e a União Europeia? 

Francisco Guerreiro: Sem dúvida que torna as relações e as negociações com a UE mais difíceis. Há uma crescente preocupação em toda a Europa com as alterações climáticas e as questões ambientais em geral. Por conseguinte, os partidos governantes nos diferentes Estados-Membros da UE terão de ter estas preocupações cada vez mais em consideração. Existem algumas semelhanças com a deterioração das relações entre a UE e os EUA, ocorrida durante a presidência do Presidente Trump.

ANDA: O desastre ambiental que vem ocorrendo há dois anos no Brasil, desde que o novo governo federal assumiu, é argumento suficiente para barrar as negociações ou mudar os critérios no acordo com o Mercosul? 

Francisco Guerreiro: Para muitas pessoas e governos (por exemplo a França, pelo menos há um ano atrás), incluindo nós, no Grupo dos Verdes no Parlamento Europeu: sim! Infelizmente, existe também uma forte pressão na Europa para concluir o acordo, que tem sido negociado há mais de 20 anos.

ANDA: Como tem combatido no Parlamento Europeu a destruição ambiental que tem ocorrido na Europa? 

Francisco Guerreiro: A minha presença em duas das mais importantes Comissões – a de Pescas e a de Agricultura e Desenvolvimento Rural – possibilita uma intervenção mais direta em matérias ligadas à destruição ambiental.
Estamos a lutar na comissão das Pescas para proteger os nossos oceanos e acabar com a pesca excessiva. Por exemplo, defendi, enquanto relator-sombra dos Verdes, a atribuição de mais fundos para a protecção e restauração da biodiversidade marinha no Fundo Europeu dos Assuntos marítimos e das pescas. Infelizmente, os outros grupos conservadores não estavam alinhados com esta proposta.

A comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural, de momento, encontra-se a discutir com as outras duas instituições Europeias (Comissão Europeia e Conselho da UE) a atualização da próxima Política Agrícola Comum – o plano Europeu de ajuda aos agricultores. Este plano tem inúmeras deficiências estruturais, que se têm vindo a adensar desde o seu início em 1962, acompanhando o aumento do consumo e demanda por produtos agrícolas. Infelizmente, este plano foca-se em ajudar os grandes senhorios; não apoia a agricultura extensiva e biológica como devia; torna opcionais para os agricultores várias práticas de saúde e bem-estar animal; atribui subsídios de marketing à promoção de alimentos com ligação direta às mudanças climáticas (por exemplo, a campanha Become a Beefatarian), entre outros. O meu trabalho na comissão de Agricultura foca-se, assim, em tentar corrigir estas deficiências – um trabalho feito com muito dificuldade pelos políticos, outra vez, mais conservadores, sendo que muitos deles são eles mesmo agricultores.

A cooperação com as ONG, umas das vozes mais importantes da chamada EU bubble, tem, sem dúvida, contribuído muito para os avanços legislativos positivos que temos vindo a alcançar.

ANDA: O acordo do Mercosul tem sido negociado com a União Europeia há cerca de 20 anos. Como é vista a possibilidade de fechar esse acordo justamente no momento em que o Brasil é governado por um político que despreza a preservação do meio ambiente, ataca os indígenas e suas terras, nega as mudanças climáticas e a pandemia e é negligente com as relações internacionais? 

Francisco Guerreiro: Do nosso ponto de vista, seria um desastre. Enviaria um sinal muito negativo a todos sobre a seriedade das nossas próprias ambições. Seria também extremamente hipócrita na nossa opinião: de um lado, afirmamos ser líderes mundiais no combate às alterações climáticas, mas do outro continuamos a assinar acordos comerciais que são completamente contraditórios a este respeito. E ainda por cima, com um governo que nega que as alterações climáticas sejam uma realidade.

ANDA: Como eurodeputado vegano, qual a sua opinião sobre a responsabilidade da agropecuária em relação à intensificação das mudanças climáticas e ao surgimento de vírus pandêmicos? O que pode ser feito para incentivar o veganismo não só pelos animais, mas também como uma forma de preservar a natureza?

Francisco Guerreiro: Quanto à ligação entre a pecuária e as mudanças climáticas, remeto para os dados matemáticos reconhecidos pela mais recente estratégia Europeia ‘Do Prado ao Prato’, que pretende revolucionar a forma como produzimos e consumimos comida na UE. A Estratégia reconhece que 10.3% das emissões de gases com efeito de estufa têm a sua origem na agricultura; e dentro destes 10.3%, 70% provêm da pecuária. No entanto, e como a totalidade das ações contempladas pela Estratégia ainda está por ser aprovada pelas Instituições Europeias, tenho muitas reservas quanto à sua eficácia. Mudar a forma como produzimos e consumimos comida não será possível se a UE não estiver disposta a corrigir a distribuição de subsídios perversos da Política Agrícola Comum – e ao que tudo indica, não está, o que deixa a indústria da pecuária sem arrependimentos por ter investido milhões em lobbying com os políticos.

Os vírus pandêmicos estão muito ligados à agropecuária e, aliás, um estudo pedido pelo Parlamento Europeu chegou a esta mesma conclusão. Os contactos entre vida selvagem, animais de pecuária e humanos estão intimamente ligados ao aparecimento de vírus. Por sua vez, a conservação da biodiversidade, por meio de, por exemplo, preservação habitats, a não desflorestação, proibição do tráfico de animais selvagens e o respeito pela saúde e bem-estar animais, reduzem a possibilidade de aparecimento de zoonoses.

O veganismo, como o passar do tempo tem provado, é um movimento que tem vindo a expandir-se muito notavelmente. As ONGs têm feito um excelente trabalho na consciencialização dos cidadãos. Vemos também os mais novos a empurrarem os mais adultos para adotarem hábitos alimentares mais responsáveis e baseados em compaixão, e isto é encantador de se observar. As redes sociais têm, igualmente, um papel fundamental. Acho que agora não há volta a dar: olhando para toda a linha temporal da existência humana, diria que já faltou muito mais para a pessoa ‘estranha’ à volta da mesa ser o onívoro, ao invés do vegano.

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Ex-policial luta para adotar cavalo explorado pela PM: ‘A casa dele é comigo e ele precisa voltar para casa’

Nanquim se alimenta ao lado da ex-policial Kelly Thimóteo, que construiu um forte laço de afeto com o cavalo (Foto: Arquivo pessoal)

A advogada e ex-policial Kelly Thimóteo luta há mais de uma década pela adoção de Nanquim, um cavalo que foi explorado por anos pela Brigada Militar de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Durante três anos, enquanto Kelly era policial, Nanquim ficou sob sua responsabilidade. A proximidade entre os dois fez com que a dupla criasse um profundo laço de afeto. Atualmente vivendo distante do cavalo, a advogada sofre e enfrenta uma batalha para tentar trazê-lo para perto.

Tanta luta resultou em um abaixo-assinado com mais de 86 mil assinaturas favoráveis à adoção de Nanquim pela advogada e na Lei nº 15.106/18, a Lei Nanquim, que regulamenta o processo de adoção de cavalos e cachorros explorados por órgãos vinculados à Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul e determina que eles sejam destinados prioritariamente para funcionários do poder público que foram responsáveis por eles em algum momento, como é o caso de Kelly. Além disso, a legislação proíbe que os animais sejam leiloados, como acontecia antes, e que sejam adotados para serem explorados para fins de comercialização ou qualquer outra atividade econômica.

Em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), a advogada falou sobre sua luta para adotar o cavalo e contou que sente que a casa dele é com ela. “E ele precisa voltar para casa”, afirmou. O amor entre os dois é tamanho que Nanquim sabia que a advogada estava se aproximando dele quando a ouvia gritar por seu nome e, em retribuição, relinchava.

“Quero poder gritar, como eu fazia quando eu chegava perto dele – eu tinha um grito especial e ele relinchava assim que eu falava o nome dele. Quero viver isso com ele de novo e cuidar dele até que um de nós passe desse mundo para o outro”, desabafou. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

ANDA: Como começou a sua história com o Nanquim? 

Kelly Thimóteo: Sou protetora de animais, hoje tenho 18 cães na minha casa. Não como carne há 11 anos. Já fui presidente de uma ONG que tutelava 400 animais. Faz muito tempo que eu trabalho em prol dos animais e o Nanquim é um cavalinho que representou bastante para muitos outros animais. Mas ele era da Brigada, então ele foi pago para mim como um objeto, como qualquer outro objeto, como a minha arma, como o meu colete, como qualquer outro objeto ele foi pago para mim. Só que não era assim que eu o tratava. Eu o tratava como um ser que sentia dor, que sentia fome, e era assim que eu tratava todos os animais do Pelotão. Eu fui a primeira mulher a trabalhar no Pelotão aqui do 3º Regimento, eu fiz um curso de doma racional – e eu nem gosto de chamar de doma, eu gosto de chamar de iniciação, que é quando a gente domestica um animal para que ela possa viver com a gente, é uma forma não agressiva de você conquistar o animal e ao conquistar o animal, você tem a obrigação de ter responsabilidade sobre o bem-estar daquele animal e inclusive sobre os sentimentos daquele animal.

ANDA: Qual é a situação atual do cavalo?

Kelly Thimóteo: Hoje o Nanquim está em uma instituição que ajuda crianças com deficiência. O cavalo tem mais de 18 anos, ele merece descansar. É isso que eu quero dar pra ele. O meu intuito não é montar nele, é cuidar dele. Não vou fazer cavalgada. Eu quero deixá-lo num lugar que ele possa descansar, possa pastar, solto, porque ele nunca pôde fazer isso na vidinha dele. Embora nos quase 4 anos que estive com ele, eu fiz tudo para dar o mais próximo ao natural possível. Eu não gostava que ele ficasse tanto tempo dentro da baia. Depois que eu deixei a polícia, ele ficou um tempo solto no campo e para o cavalo é a mesma coisa que você soltar um cachorro na rua. Um cavalo acostumado a ficar em baia, solto no campo vai sofrer demais. Não é isso que pretendo fazer com ele. Ele não tem condição de ficar solto no campo porque ele definha e morre.

ANDA: Como teve início sua luta pela adoção do cavalo?

Kelly Thimóteo: Começou assim.. Fiz um post há uns três anos, porque já faz 10 anos que estou tentando adotá-lo. Na época, fiz um post sobre a minha luta e aquilo viralizou. Houve um abaixo-assinado, que até não fui eu quem fiz, depois fui eu que fiquei como a pessoa que teve a iniciativa e nós não encontramos a pessoa que iniciou, não conseguimos encontrar. Tiveram mais de 86 mil assinaturas. Disso tudo resultou uma lei. Porque o que acontecia antes – que não deve acontecer mais, mas ainda está acontecendo: os animais que estavam sob a tutela do Estado eram tratados e infelizmente ainda são – apesar da lei, ainda têm alguns resquícios – absolutamente como coisas, eram tratados como bens, como qualquer outro bem. Então quando a polícia não tinha mais interesse neles, eles eram leiloados como qualquer outro bem para quem desse maior lance. Não importava o destino desses cavalos e cães da Brigada. Se alguém quisesse comprar um lote de cavalo para matá-los para consumo, poderia, ou para colocar em uma carroça, um cavalo com 18 anos de Brigada, poderia. Depois de toda essa luta, com a Lei Nanquim, os cães e cavalos da Brigada não podem mais ser leiloados, essa é a intenção da lei. Infelizmente, nós tivemos mais um leilão depois da lei, em março de 2020, em Santa Maria, mesmo contrário à lei

ANDA: Qual é, na sua opinião, a importância da Lei Nanquim?

Kelly Thimóteo: A intenção da lei é tratar os animais com dignidade pelo menos na hora da aposentadoria, quando o Estado não tem mais interesse neles. Para humanizar ainda mais a lei, teve no artigo terceiro, parágrafo único, a prioridade de adoção para quem trabalhou com o cavalo ou cachorro, porque a intenção da lei é deixar de tratar os animais como se fossem coisas. E a proximidade com a pessoa que trabalhou com o animal é muito maior e a prioridade tem que ser dada para essa pessoa, porque a adoção desses animais deve ser feita por quem quer cuidar, por quem ama.

Como no RS a gente tem essa cultura de ter cavalo, de utilizar cavalos, tinha-se muito cavalo dentro dos regimentos da Brigada Militar, eles eram leiloados em lotes de mais de dois, três animais. Eu viajei muitas vezes para Porto Alegre, ia aos leilões para acompanhar, porque até a lei sair eu não podia fazer nada, só poderia acompanhar, ver se eles estavam bem cuidados e estavam indo para alguém que não fosse usar para carroça. Essa lei, a princípio, tem grande utilidade, principalmente no Rio Grande do Sul.

A lei levou o nome dele por essa luta minha dentro do ativismo em prol dos animais que estão na Brigada. Eu me criei lá dentro, meu pai tem 35 anos de polícia, iniciou dentro dos regimentos, antes mesmo de caminhar eu já andava a cavalo, nós dois temos uma ligação muito especial com todos os animais, mas principalmente com cavalos. Meu avô era criador de cavalos. Temos uma proximidade muito grande.

ANDA: O Nanquim foi adquirido pela Brigada Militar (BM) ou já nasceu na instituição? Qual era a idade dele quando passou a conviver com você?

Kelly Thimóteo: O Nanquim nasceu na Brigada, ele era de uma égua que pertencia à BM. Chegou aos meus cuidados com cerca de 4 anos, antes de ser domado. Até os 4 anos, ele morou na fazenda da Brigada. A mãe dele faleceu logo depois que ele nasceu e ele foi criado com leite de vaca e sobreviveu. Foi um soldado que gostava muito da égua, mãe dele – tem histórias bonitas dentro de tudo isso, até no lodo mais escuro nasce flor -, que cuidou dele, não deixou que ele morresse de fome. Porque normalmente um potrinho que a mãe morre, acaba morrendo junto com ela. Mas ele tomou leite de vaca e chegou até os 4 aninhos. Ele é um cavalo pequeno, mirrado, por conta de toda essa situação que ele passou.

Eu sai da Brigada em 2010 e ele ficou mais 10 anos na Brigada. Ele tinha quatro anos e ficou comigo mais uns três. Já está prestes a completar 11 anos que sai. Ele deve ter cerca de 18 anos e permaneceu na BM até o dia 22 de janeiro de 2021. Saiu da polícia nesse dia.

O Nanquim, quando eu estava na polícia, foi entregue para mim, e ele era um potrinho xucro. Eu fiz um curso dentro da Polícia Militar, mesmo contra o meu comando, que não queria que eu fizesse o curso por eu ser mulher, eu fiz o curso e eu iniciei o Nanquim na Patrulha, fui a primeira pessoa a montar nele, a levá-lo para a patrulha montada, passamos muitas coisas juntos, chuva, sol, ele é um animal muito especial. Depois que sai da polícia e me formei, – hoje sou advogada -, eu tentei adotar o cavalo, falei inclusive com o comandante geral na época, mas ele era um bem do Estado e não era bem assim para desafetar esse bem. Nós precisaríamos de uma lei diferente.

O Nanquim ficou três anos desaparecido do quartel, me falavam que ele estava na fazenda da Brigada, que é perto da cidade, só que lá é de difícil acesso, é um lugar muito grande. Eu ia visitar e nunca o encontrava, cheguei a pensar que ele tinha morrido e não queriam me falar. Só que um dia, após eu e minha mãe percorrermos a fazenda a pé por dois dias, encontramos o Nanquim. Ele estava em um estado deplorável, muito magro. Eu e uma amiga, que também é ativista, fomos tirar satisfação com os responsáveis, e essa amiga minha saiu presa de dentro do quartel. Eles não me prenderam porque sou advogada, mas minha amiga saiu presa e responde processo por desacato, mas nunca desacatou, isso foi uma retaliação pelo fato de eu enfrentar esse sistema e não concordar com o jeito como os animais são tratados – eram tratados, pelo menos, na época, mas vem melhorando.

Aí começou toda essa campanha para que eu pudesse ficar com o cavalo e eles colocaram o Nanquim para trabalhar de novo por mais dois anos. Agora ele está na idade limite, eles levaram o animal até a idade máxima, mesmo tendo outros animais lá, eles colocaram o Nanquim para trabalhar para não dar o cavalo para mim, essa é a minha opinião. Agora saiu a descarga do cavalo, ele é considerado “inservível” por causa da idade e eu tinha prioridade, fui uma espécie de “garota propaganda” da lei que leva o nome do cavalo e eles acharam uma brecha ali dizendo que eu não sou mais funcionária pública e não posso mais ficar com o cavalo – na verdade, nem me deram resposta, isso foi um “disse me disse” que chegou até mim.

Aí mandaram o cavalo, mesmo com os meus requerimentos, para o Patronato de Erechim. Entrei em contato com a instituição para ver se desistiam da adoção e eles disseram que não porque tinham interesse no cavalo porque colocam as crianças com necessidades especiais para fazer equoterapia. Fiquei muito triste com a resposta que tive deles.

Estou nesta luta há 10 anos, desde que sai da polícia. E eu prometi para ele, no meu último dia de trabalho, que eu ia ficar com ele, que eu ia dar um descanso para ele. Está na hora da gente dar um descanso para ele, ele precisa pastar, correr solto, ir para a baia e dormir, sem cela, sem horário de trabalho, está na hora dele descansar. A gente precisa saber que os animais, assim como nós, também precisam descansar.

ANDA: De que forma você analisa a resistência da Brigada Militar para aceitar o seu pedido de adoção do Nanquim, mesmo após a sanção da legislação que versa sobre os animais explorados pelo Estado?

Kelly Thimóteo: A lei foi feita para humanizar o destino dos animais, visando a luta que eu tenho para dar uma destinação digna para os animais da Brigada, mas também para o caso do Nanquim especificamente. A prioridade teria que ser para mim e eles acharam uma brecha dentro da própria lei. Mas a lei não deve ser analisada friamente, não é matemática, ela não pode ser usada para prejudicar os outros, não pode ser interpretada de uma forma restritiva, a prioridade era minha sim.

Eu tenho com ele um dever de proteção, é um sentimento de proteção. Porque a gente tem uma ligação muito forte. Não é um simples capricho, porque se fosse por isso, eu tenho muitos animais aqui para me preocupar. Então não é um simples capricho. Eu devo isso a ele.

Quem não gosta de animal, não entende esse tipo de ligação. Nós, que gostamos, vivemos ao mesmo tempo uma benção e um fardo por gostar deles e sofrer junto com eles. Sinto que a casa dele é comigo e ele precisa voltar para casa. Quero poder gritar, como eu fazia quando eu chegava perto dele – eu tinha um grito especial e ele relinchava assim que eu falava o nome dele. Quero viver isso com ele de novo e cuidar dele até que um de nós passe desse mundo para o outro.

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Entrevistas, Notícias

Para além da vivissecção: rumo a uma ética ecológica e antiespecista

Reprodução | Facebook

Paula Brügger é graduada em Ciências Biológicas com especialização em Hidroecologia, possui Mestrado em Educação e Ciência e Doutorado em Ciências Humanas – “Sociedade e Meio Ambiente”. Foi professora titular do Deptº de Ecologia e Zoologia da UFSC até 2019. Atualmente é coordenadora do Observatório de Justiça Ecológica da UFSC. É autora dos livros “Educação ou adestramento ambiental?”, e “Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas”, além de uma centena de textos sobre ética ambiental e animal – capítulos de livros, artigos, e colunas – entre eles os reconhecidos internacionalmente “Impact of Meat Consumption on Health and Environmental Sustainability” e “Social Marketing and its Influence on Animal Origin Food Product Consumption”. Atua nas seguintes temáticas: educação ambiental abolicionista; paradigmas de ciência e sustentabilidade; implicações éticas e epistemológicas da visão mecanicista da ciência na experimentação animal; e a imagem da natureza e dos animais não-humanos na mídia.

Republicamos esta entrevista (*) concedida com exclusividade à ANDA, em 2010, na qual Paula destaca o quanto é inconcebível e desnecessária a experimentação de animais em laboratórios. (*) A entrevista desapareceu do nosso banco de dados devido à ação de hackers.

ANDA – Como profissional da área de Ciências Biológicas, que razões te levam a ser contra a experimentação com animais?

Paula Brügger – Como bióloga e, por que não dizer, como cientista, sou contra a “experimentação animal” por duas razões básicas. A primeira é que tais experimentos são injustificáveis sob o ponto de vista ético por submeterem seres sensíveis e conscientes a diversas categorias de danos físicos e psicológicos e à morte. Como se isso não fosse suficiente – e aqui vem a segunda razão – a chamada “experimentação animal” é uma prática que falha em alguns critérios essenciais para que uma atividade seja considerada verdadeiramente científica.

Autores como Jean e Ray Greek e Hugh LaFollette e Niall Shanks, entre outros, destacam a predictabilidade (capacidade de prever um fato ou fenômeno) como um dos principais critérios em que os testes com animais falham: os dados provenientes dos “testes” não são confiáveis, não são absolutamente seguros para predizer o resultado do uso de determinada droga, ou as reações a procedimentos variados, como os cirúrgicos.

Em meu livro Amigo Animal, de 2004, tratei especificamente desse segundo aspecto, ou razão, para me opor aos testes com animais, tomando como base uma série de considerações de natureza epistemológica (isto é, que dizem respeito à forma como o conhecimento é construído) sintetizadas pelo físico Fritjof Capra.

Em seu livro A Teia da Vida, Capra resume e reelabora diversas premissas que fundamentam as visões de mundo sistêmicas que são essenciais para a compreensão da complexidade que envolve os fenômenos tanto naturais quanto sociais. Ao reler seu trabalho, logo percebi a importância desse conjunto de premissas para explicar as razões subjacentes à falibilidade dos modelos experimentais com animais não-humanos.
Foi assim que nasceu em meu livro o capítulo intitulado “modelos animais”. Minha convicção no que tange a essa questão ficou ainda mais forte quando li o segundo livro do casal Jean e Ray Greek (Specious Science), citados antes.

A argumentação deles – calcada sobretudo na Teoria da Evolução e na Genética – complementava e contextualizava admiravelmente bem o que eu havia “pincelado” antes, no Amigo Animal, com base em seu primeiro livro e nas premissas das visões sistêmicas e suas redes autopoiéticas (ou seja, que se autoproduzem/gerenciam). É interessante que, já na graduação, eu sentia uma profunda rejeição por quaisquer formas de manipulação de vidas animais e mesmo de vegetais, em alguns casos.

No que diz respeito aos animais, o que sentia era uma aversão literalmente visceral.
Naquele tempo ainda não havia a possibilidade de recorrer à escusa de consciência, garantida hoje pela Constituição Federal de 1988. Discussões sobre a cientificidade dos testes com animais, menos ainda. Hoje vejo com clareza que minha “intuição” – no sentido de instrução, conhecimento, ou conjunto de valores que vêm de dentro – estava de acordo com o que preconiza a epistemologia mais recente: trata-se de uma prática abominável sob o ponto de vista moral e espúria no âmbito científico.
Razão e emoção, aqui, caminham lado a lado.

ANDA – Os defensores da experimentação animal afirmam que a criação de fármacos e, consequentemente, a cura de doenças, depende diretamente dessa prática. Você concorda com isso?

Paula Brügger – Eu começaria citando o elevado índice de efeitos colaterais nocivos decorrentes do uso de fármacos legalmente vendidos. Diversos autores, como Kathy Archibald, citam longas listas de medicamentos retirados do mercado por conta dos seus gravíssimos efeitos colaterais e destacam que tais listas representam uma pequena parte da calamidade total, já que muitos problemas sequer foram relatados. Isso acontece por causa dos argumentos expostos na pergunta anterior: os dados provenientes de testes com animais não-humanos não são confiáveis.

O modelo animal é falho porque existem diferenças, entre nós e eles, na anatomia, na fisiologia, nas interações ambientais, etc, que resultam na não-correspondência na absorção, distribuição e metabolismo de substâncias. Ademais, as condições de laboratório são mais controladas do que na vida humana e as doses administradas a eles podem ser muito maiores do que as prescritas aos humanos, em termos de peso corporal. As vias de inoculação de diferentes substâncias – se oral, anal, peritonial, vaginal etc. – exercem também uma grande influência sobre os resultados dos testes.

Animais de laboratório são, ainda, em geral, menores do que os humanos e com isso têm um metabolismo muito mais intenso. Esse fato pode impedir que os efeitos tóxicos apareçam, pois as toxinas são eliminadas mais rapidamente. Tudo isso afeta a absorção, a farmacocinética e o metabolismo de compostos, ou causa reações inesperadas com relação a um composto. Embora haja muitas características comuns entre nós e os outros animais, diferenças ínfimas podem levar a erros grosseiros porque tais diferenças formam potencialmente novos universos, novos “elos” que vão “tecendo” novas redes e conexões (afetando, por exemplo, vias metabólicas). Somos todos formados pelas mesmas unidades de DNA (A, T, C, G) que são juntadas no mesmo processo. Mas, enquanto o material genético é o mesmo, a composição, os arranjos são diferentes. Aqui é impossível não lembrar de uma passagem do filme Ponto de Mutação, de Capra, na qual se diz que as “relações formam tanto a matéria, quanto a música”.

Basta pensar que a partir de apenas 7 notas é possível compor todos os tipos de músicas existentes – de sinfonias a melodias de origem folclórica – e que, basicamente, a partir dos infinitos arranjos, isto é, das relações entre 4 bases nitrogenadas, a vida construiu tudo o que existe em termos de biodiversidade. A partir desse olhar sistêmico sobre a natureza, fica evidente o caráter limitado dos modelos animais, que se baseiam em premissas essencialmente mecanicistas. Por exemplo, uma mudança em um único aminoácido é responsável pela diferença entre a molécula de hemoglobina de pessoas com sangue normal e a molécula de hemoglobina em pacientes com anemia falciforme.

Da mesma forma, uma única diferença em um aminoácido, entre primatas humanos e não humanos, faz com que o HIV não se acople ao mesmo receptor celular em primatas não humanos. Qualquer diferença, por menor que seja, pode deflagrar uma nova relação e formar uma nova rede. Essa é a dialética da natureza. Os defensores dos modelos animais insistem em afirmar que muitos medicamentos, procedimentos cirúrgicos e terapias dependeram da experimentação animal, ou foram descobertos usando animais como modelos. Mas, em geral, não aceitam discutir o baixo índice de sucesso dessa forma de construir conhecimento.

Os Greek destacam que, de acordo com a organização Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, apenas 1% dos novos medicamentos testados em laboratórios vai para o estágio clínico (em que são testados em voluntários humanos). De acordo com a fonte, ou a área examinada, esse índice de sucesso pode aumentar até bastante, mas no cômputo geral a confiabilidade é sempre baixa. Estamos, portanto, diante de um percentual de sucesso que não parece diferir de outras situações baseadas em meras tentativas, como os índices de acerto em cestas de basquete por parte de pessoas que não dominam tal esporte.

Se eu deixasse uma câmara ligada filmando minhas tentativas de fazer cestas e exibisse posteriormente apenas meus acertos, eu provavelmente convenceria as pessoas de que sou uma exímia jogadora. Mas isso reflete a verdade? Analogamente, é evidente que, com um volume tão grande de experimentos (estima-se que cem milhões de animais sejam mortos em experimentos a cada ano, mas esse número é provavelmente bem maior), alguns resultados possam ser aproveitados. Porém, isso não reflete uma empreitada verdadeiramente científica. A validação de modelos pode aumentar bastante o sucesso das pesquisas, contornando as suas “anomalias” (isso implica de qualquer jeito a morte massiva de animais), mas, no geral, os dados corretos permanecem fruto da coincidência de resultados entre o modelo e o “objeto” a modelar, ou de pistas fornecidas por outros campos de pesquisa (muitas vezes não creditadas).

Há outro aspecto muito importante: muitas vezes não são devidamente examinados os nexos causais entre os resultados de estudos com animais e o efetivo progresso da medicina. A história das terapias contra a AIDS e o câncer, e de procedimentos como os transplantes, entre outras, está repleta de exemplos de como os estudos com animais foram inúteis e até submeteram os primeiros humanos à verdadeira condição de cobaias, pois os pressupostos (dados obtidos em animais) não podiam ser extrapolados para os humanos. Assim como Kathy Archibald, citada antes, Neal Barnard e Stephen Kaufman listam uma longa série de drogas ou substâncias que apresentam efeitos totalmente diferentes em animais e seres humanos, alguns dos quais sérios e até fatais.
Foram os estudos epidemiológicos, observações clínicas e autópsias que mostraram tais efeitos devastadores.

O efeito carcinogênico do cigarro é um caso clássico: estudos clínicos, não pesquisas em animais, estabeleceram a ligação entre o tabagismo e diversos tipos de câncer (como de pulmão, boca, língua, laringe, fígado, etc), e doenças do coração, catarata, doenças respiratórias, doenças periodontais, e muitas outras. É incrível que com todas essas evidências algumas companhias de tabaco ainda insistam nos testes com animais.
Não há coerência (ou consiliência), portanto, entre as descobertas dessas diferentes áreas de pesquisa. Jean Pierre Dupuy salienta que é a epidemiologia que nos ensina que os progressos da longevidade humana no Ocidente nos últimos 150 anos devem o essencial aos melhoramentos da higiene pública, alimentação, condições de alojamento, água potável, esgotos etc. Isso não quer dizer que as armas que a medicina conseguiu aperfeiçoar não sejam eficazes, mas que temos que reconhecer seus limites.

É a epidemiologia que nos mostra também que temos hoje uma substituição das doenças infecciosas por doenças crônicas degenerativas. Dupuy enfatiza ainda a importância de uma visão ecológica sobre a saúde humana, em contraposição às visões reducionistas dominantes. Ele levanta questões muito interessantes tais como o fato de estarmos tratando problemas complexos de uma forma biologicizada, reduzindo respostas orgânicas saudáveis a situações intoleráveis de vida, ou de trabalho, à condição de doença.

Thomas McKeown também argumenta que a medicina moderna não é tão eficiente como a maioria das pessoas acredita. Existe um falso conceito sobre a saúde humana. Médicos, bioquímicos e a população, em geral, acreditam que o corpo é uma máquina que pode ser protegida das doenças basicamente através de intervenções físicas e químicas. Essa abordagem, enraizada na ciência do século XVII, generalizou a indiferença com relação à influência dos determinantes primários da saúde humana: o meio ambiente e o comportamento pessoal (como uma melhor alimentação, ou a atividade física), e destacou o papel do tratamento médico.

Ele menciona que a queda na mortalidade de várias doenças contagiosas ocorreu muito antes da descoberta de tratamento médico, ou intervenções médicas efetivas, e assinala a importância de aquilatarmos o quanto somos responsáveis pela nossa própria saúde.
Trabalhos recentes, inclusive recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), corroboram essa visão mais sistêmica e ecológica. Mas o modo de pensar fragmentado e reducionista ainda é muito comum dentro do meio acadêmico. Basta examinar, por exemplo, a questão da saúde dos ossos. Nós, veganos (e mulheres veganas ainda mais!), somos constantemente aterrorizados por médicos e nutricionistas, inclusive, com a possibilidade de sermos acometidos pela osteoporose, uma vez que não consumimos laticínios. Mas o Dr. Eric Slywitch nos ensina que o cálcio é apenas um entre os 18 fatores nutricionais necessários para a saúde óssea. E, quando pensamos que os laticínios são uma entre muitas fontes de cálcio, percebemos o quão improcedente é tal tipo de “terrorismo”.

ANDA – Experimentação animal e vivissecção significam a mesma coisa?

Paula Brügger – O termo vivissecção tem o significado literal de “cortar um corpo vivo”, mas também é usado para designar “a realização de operação ou estudo em animal vivo para observação de determinados fenômenos”. Segundo o The Concise Oxford Dictionary of Current English, vivissecção significa “dissecação ou outros tratamentos dolorosos em seres vivos para propósitos de pesquisa científica”. É verdade que existem estudos pouco invasivos, ou meramente comportamentais, que não se encaixariam bem no significado do termo “vivissecção”, se tomarmos a palavra ao pé da letra. Eu sigo a tendência dominante de tratar os termos como sinônimos, conforme as definições anteriores, porque, na prática, não existem diferenças expressivas entre eles. Ambos são materializações de uma racionalidade essencialmente instrumental, expressões do paradigma reducionista e mecanicista dentro do qual tudo no planeta Terra se “transforma” em recurso, em meio para atingir determinado objetivo. Nada mais tem valor intrínseco. E os animais não se constituem em uma exceção.

ANDA – Você já se referiu ao aspecto antiético da prática vivissecionista, no que tange aos animais de forma direta. Existe alguma outra faceta antiética ligada à experimentação animal?

Paula Brügger – Fora o aspecto mais imediato e evidente de causar sofrimento e morte a seres sencientes – isto, é aqueles capazes de sentir dor e emoções como alegria, ódio, ou medo – o caráter antiético da prática vivissecionista encontra-se relacionado mais uma vez a questões epistemológicas. É interessante destacar que o filósofo alemão Herbert Marcuse nos ensina que ética é, em si, epistemologia e vice-versa. Isso fica claro quando retomamos a questão da baixa confiabilidade dos modelos animais. Devemos reconhecer que nenhum método – seja ele baseado em animais, seres humanos, ou tubos de ensaio – é capaz de prever as reações dos pacientes com 100% de precisão. As reações diferem de acordo com o sexo, a idade, o grupo étnico e mesmo entre membros da mesma família.
Somos todos diferentes, bioquimicamente únicos, embora não tão diferentes uns dos outros quanto somos dos animais não humanos, é claro.

Dessa forma, apesar de todos os genomas humanos terem mais de 99,9% de identidade, a pequena proporção de 0,1% de diferença pode produzir uns três milhões de polimorfismos, ressaltam os Greek (vejam que, mais uma vez, a prática encontra respaldo na teoria sistêmica). Muitos deles não têm efeito, mas os que têm impacto na expressão e função de proteínas podem afetar o funcionamento de drogas. Alguns exemplos estão relacionados ao metabolismo do colesterol, à manifestação da asma e aos transmissores de serotonina. Tudo isso só reforça a ideia de que usar animais em estudos é ineficaz e antiético, pois nenhuma dessas particularidades pode ser descoberta nos modelos animais.

Archibald, citada antes, diz que a massiva ênfase na confiabilidade dos dados provenientes da experimentação animal permite que as companhias farmacêuticas evitem conduzir etapas clínicas mais criteriosas, mais representativas, com mais pessoas e durante mais tempo. E que os testes com animais são feitos por razões legais e não científicas, visto que isso protege as empresas contra processos decorrentes de efeitos colaterais prejudiciais ou letais. Mais grave ainda é que muitos compostos químicos cujos efeitos nocivos encontram-se fartamente documentados – em estudos epidemiológicos, clínicos etc. – podem ser “inocentados” via experimentação animal. Isso acontece porque os testes geram dados contraditórios e inconclusivos, o que, em tese, é muito bom para a indústria.

É como enfatiza o Dr. Neal Barnard, presidente do “Comitê Médico por uma Medicina Responsável”: usando diferentes espécies em diferentes projetos, os cientistas podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria. No caso do cigarro, por exemplo, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno, quanto as que asseguram a sua inocência, usaram animais como base. Há inúmeras outras facetas antiéticas ligadas à experimentação animal, tais como os gigantescos interesses econômicos envolvidos na criação e venda de animais, aparelhos de contenção, gaiolas, e os próprios fármacos.
O setor farmacêutico é um setor produtivo que, como qualquer outro em nossa sociedade, precisa constantemente colocar novas drogas no mercado a fim de assegurar lucros crescentes. E isso, independentemente de as novas drogas serem mais eficazes ou seguras do que aquelas já existentes no mercado.

Não vou explorar aqui esse aspecto, mas recomendo que o leitor procure na Internet, por exemplo, os depoimentos da Dra. Marcia Angell, autora do livro A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos. Para encerrar esta pergunta, creio que é esclarecedor trazer à discussão alguns dos questionamentos de Paul Thagard quanto à distinção entre ciência e pseudociência (falsa ciência). Ele recomenda examinar, entre outras questões, se a comunidade de praticantes está tentando explicar as anomalias da teoria e se as consideram importantes; se estão comparando o sucesso da teoria com o sucesso de teorias alternativas/concorrentes; e se a comunidade científica procura provar ou reprovar a teoria. No âmbito da experimentação animal, nenhuma dessas perguntas, aparentemente, se faz presente: elas são desafios de natureza ética e epistemológica que representam ameaças à continuidade da experimentação animal e ao mundo produtivo ao qual ela serve.

ANDA – Quais as dificuldades de abordar, no meio científico, questões de cunho ético que dizem respeito à nossa relação com os animais não-humanos?

Paula Brügger – Esta pergunta é muito boa porque nos remete ao universo muito mais amplo de pensamento e ação mencionado antes – à “lente” através da qual conhecemos a natureza e seus fenômenos – que prima por uma racionalidade mecanicista, instrumental.
Recorro mais uma vez a Marcuse, que nos ensina que nossa forma dominante de construir conhecimento é baseada na quantificação da natureza. Mas a tradução da natureza em termos de estruturas matemáticas (por exemplo, a coleção de dados como pesos, alturas, percentuais, informações estatísticas, quantificação de danos ambientais etc.) criou a ilusão da existência de uma realidade autônoma, independente do observador humano.
Isso acabou separando a Ciência da Ética e resultou na dificuldade de vermos nossos “objetos” de estudo em termos de causas finais (isto é, dotados de valor intrínseco).
Essa é a base da visão da natureza como uma grande fábrica, como uma parte produtiva do todo. E dos animais (mesmo os humanos) como recursos ou meios. Ao estabelecer a quantificação da natureza como um pré-requisito para conhecê-la, a ciência foi também paulatinamente destituindo a importância dos nossos sentidos como forma confiável de conhecer o mundo. O conhecimento passa então a ser construído, cada vez mais, por meio do domínio ou mesmo da libertação dos sentidos.

Não é difícil aquilatar o quanto tudo isso foi especialmente nefasto no caso da nossa relação com os animais. O conceito de especismo é, com isso, particularmente relevante para a compreensão de nossa relação com os outros animais, uma vez que contextualiza e detalha um aspecto do antropocentrismo como traço cultural que domina nosso olhar sobre a natureza. O especismo encontra-se na base de nosso pensamento. Estamos imersos dentro dessa “bolha” ou “lente” paradigmática que – como antolhos – nos impede de ver o que é evidente, o que os sentidos nos mostram o tempo todo: que os animais não são autômatos incapazes de pensar; que eles têm linguagem; que são sencientes; que gerenciam sua saúde e seu bem-estar; que têm uma expectativa sobre o futuro (e lembranças do passado); e que, em alguns casos, têm o que podemos chamar de uma protocultura.

Tudo isso deveria lhes conferir direitos, sendo o direito à vida o mais evidente. Mas falar de uma ética que inclua os animais não humanos como parte da comunidade moral equivale a tentar virar o mundo de cabeça para baixo. E tratar desse assunto pode ser tanto mais difícil quanto mais alto o nível de escolaridade das pessoas. Isso porque, dependendo da área em que trabalham, ou estudam, pode haver conflitos de interesses. Agir de forma eticamente correta é geralmente mais difícil porque, frequentemente, nos vemos forçados a abandonar nossas zonas de conforto mental para abrir mão de práticas (ou costumes) moralmente injustificáveis, independentemente de o quanto isso possa nos afetar.

A maior parte dos alunos das fases finais de cursos de graduação como as Ciências Biológicas, Bioquímica, ou Farmácia não deseja ouvir discursos inconvenientes que abalem suas convicções, construídas ao longo da graduação, quanto ao que seja fazer Ciência.
Numa experiência acadêmica recente, que durou três semestres, me senti diversas vezes como se estivesse falando para uma parede de granito. Mas a resistência dos alunos em ouvir o que poderíamos chamar de “lado B” da experimentação animal – e outras relações especistas – é um mero reflexo do ambiente em que estão.

Os estudantes espelham as visões de mundo de seus professores. E, entre estes, praticamente não há vozes contrárias à vivissecção. Os poucos que não “simpatizam” com a prática tampouco a condenam de forma aberta e sistemática. A questão – de ser contra ou a favor – costuma ficar na esfera das convicções pessoais, ou seja, o assunto não é tratado como algo que mereça uma reflexão acadêmica. Isso se deve, mais uma vez, ao fato de não se tratar o tema sob o ponto de vista epistemológico. Vale destacar também que, como os animais não são vistos como pertencendo à comunidade moral, muitos professores preferem não se indispor com seus colegas vivisseccionistas.

É preciso pontuar, inclusive, que nas Ciências Biológicas é relativamente comum sacrificar vidas animais para estudar. Ainda que tais práticas não se constituam em “experimentação”, isso contribui para “esfriar” eventuais críticas à vivissecção. Além disso, há o aspecto do prestígio e da produtividade acadêmica. Mais uma vez cito os Greek, que comentam que, enquanto um pesquisador clínico publica um trabalho, um vivisseccionista publica, em média, cinco. Isso acontece porque “um rato é um animal que, quando injetado, produz um artigo”, enfatizam eles.

Já presenciei algumas cenas nas quais os estudantes são insuflados por seus professores a adentrarem esse mundo da “produtividade acadêmica” (sic). Parece não ter a menor importância o fato de estarem construindo suas carreiras rolando por sobre os cadáveres de indefesos seres sencientes. Isso coincide, lamentavelmente, com a crítica de Milton Santos à “universidade de resultados”, consequência de comportamentos pragmáticos e raciocínios técnicos que atropelam os esforços de entendimento abrangente da realidade.
No caso especificamente da vivissecção, aceitamos tudo isso porque somos especistas.
Não levamos a sério o sofrimento dos animais.

ANDA – Você considera que a criação de “comissões de ética no uso de animais”, no que tange ao ensino ou à pesquisa científica, poderá salvaguardar alguns interesses dos animais?

Paula Brügger – Como ex-membro de uma das primeiras comissões desse tipo no país, posso afirmar que tais fóruns de deliberação são ineficientes porque são formados predominantemente por vivisseccionistas e, por conta disso, se tornam tendenciosos.
Vivenciei ao longo do meu mandato situações desconcertantes como: pesquisadores que desconheciam os métodos substitutivos ao uso de animais, bem como os avanços científicos em suas áreas (em mais de trinta anos de pesquisa com modelos animais); protocolos que buscavam renovação com base em critérios produtivistas como publicações, dissertações e teses, ou seja, com base em seu valor instrumental e não no valor intrínseco (que seria o avanço científico em si); e protocolos que eram aprovados porque alguns membros da comissão alegavam não ter competência para questionar seus colegas.
Com isso, durante o período em que participei da comissão, apenas uns poucos protocolos foram reprovados com base na total inobservância de critérios mínimos, tanto científicos, quanto éticos.

Eram simples “experimentações” que alguns colegas mal acostumados vinham praticando há décadas, sem que houvesse qualquer questionamento acerca delas. Mesmo assim, ouvi dizer que algumas dessas “pesquisas” acabaram acontecendo por causa do hiato entre o início do experimento e a negativa por parte da comissão, às vezes demorada. Tivemos, contudo, um saldo positivo: um colega que trabalhava com animais deixou de fazê-lo.
Outros avanços que poderiam ser mencionados – como um maior empenho na clareza dos objetivos e nos critérios científicos adotados em diferentes protocolos de pesquisa – devem ser vistos com cautela.

Como a aprovação de protocolos por parte dessas comissões é uma condição sine qua nonpara que um trabalho seja publicado em revistas e periódicos de prestígio, a motivação para aprimorar um protocolo pode ter pouco a ver com valor intrínseco da pesquisa, no sentido lato de avanço da ciência.

O fato é que a posição dos vivisseccionistas é bastante confortável, já que eles não têm que se encarregar, verdadeiramente, do ônus da prova de que é preciso aniquilar tantas vidas. Essas comissões acabam, com isso, legitimando uma ciência especista, sob o manto de uma suposta avaliação ética. Mesmo que todos os problemas citados não tivessem existido, ou que possam hoje ser minimizados, tais comissões não salvaguardariam os interesses dos animais porque seu fundamento não é abolicionista. Aliás, mais correto é dizer que tais problemas existem precisamente porque os valores que fundamentam as comissões não refletem uma mudança paradigmática, mas, na melhor das hipóteses, uma visão bem-estarista ou reformista, como destaca Tom Regan. A verdadeira mudança paradigmática não propõe “jaulas maiores”, mas “jaulas vazias” pois, ainda que os experimentos resultassem em dados úteis e confiáveis, não temos esse direito.

Não é absolutamente razoável rotular como “radicais”, ou “obscurantistas” movimentos que, baseados em dados científicos e reflexões fundamentadas na mais recente epistemologia, questionam a legitimidade da prática vivisseccionista. Não se pode afirmar que não seja possível prescindir dos modelos animais porque não há investimento algum (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, epidemiológicos e outras fontes de informação). E isso acontece por diversas razões.

A principal delas é, mais uma vez, a falta de uma visão sistêmica na construção do conhecimento. Avanços significativos, especificamente no que toca aos fármacos, poderiam advir da adoção de novas técnicas e procedimentos, já existentes – que evitariam a etapa de testes com animais – e da ampliação da fase de estudos clínicos.

A observação sistemática dos efeitos colaterais de fármacos já existentes, inclusive os efeitos positivos que resultariam em novos valores de curas, também traria uma inestimável contribuição. A inclusão em larga escala de antigos e novos métodos como os estudos in vitro, epidemiologia, observação clínica, autópsias etc. – e as simulações por computador, química combinatória e modelagem matemática – permitiriam, também, mudar a forma dominante de se fazer pesquisa.

A epidemiologia, hoje, é grandemente facilitada pelo fato de que dados médicos podem ser acessados por computador, rastreando informações sobre milhares de pacientes em diversas instituições. Nunca houve um período histórico com tantas possibilidades de unir novas tecnologias a práticas tradicionais. Nunca houve uma condição tão favorável para acabar com a vivissecção, fazendo interagir os avanços nas ciências da vida (como a epigenética, por exemplo) com a tecnologia e as ferramentas de gestão do conhecimento.
Não podemos dizer que não vai dar certo algo que não foi tentado. Seria como se alguém, ao “rés-do-chão”, olhasse para o alto de uma escadaria e dissesse: “não consigo subir”, sem que ao menos tentasse dar o primeiro passo. Certa vez um colega vivissecionista criticou os defensores do abolicionismo animal alegando, entre outras coisas, falta de coerência entre seus praticantes.

Ele argumentou que, quando precisamos de um medicamento, damos “graças a Deus” de termos a chance de nos curarmos. Sem entrar no mérito de o quanto nós, antivivisseccionistas, conseguimos manter nossa saúde mais às custas da prevenção, do que de intervenções, não é difícil imaginar uma situação análoga em que um abolicionista no século XIX fosse criticado por usar roupas de algodão colhido por escravos, como se essa fosse a única forma de produzir, colher e manufaturar tais produtos. Poderíamos ir longe com este tema, mas vou ficando por aqui. Quem desejar ler mais sobre o assunto poderá encontrar diversos textos muito esclarecedores na Internet, inclusive em língua portuguesa. Encerro com uma frase meio poética, meio epistemológica: não sei se navegar é preciso, mas realizar experimentos em animais não é preciso.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

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Em meio à queda no consumo de carne, nutricionista dá dicas sobre transição para alimentação vegana

Em meio à pandemia, procura por alimentos de origem vegetal aumentou (pixabay/gavilla)

Há anos, especialistas alertam sobre a relação entre a exploração animal e o surgimento de vírus, que podem levar a pandemias. Esses alertas, porém, se tornaram mais frequentes no momento atual por conta do coronavírus, que já matou mais de 328 mil pessoas no mundo e 18.894 no Brasil.

Além do impacto ambiental sobre os ecossistemas, gerado pela ação humana, a exploração de animais para consumo também abre espaço para os vírus. Ao aglomerar e confinar animais, estressados e muitas vezes doentes, e submeter funcionários de matadouros à aproximação com esses animais, a indústria facilita o contato de pessoas com organismos que podem levar ao adoecimento humano. Como aconteceu em Wuhan, na China, no mercado que comercializa animais vivos e mortos – onde, segundo especialistas, o coronavírus surgiu.

Diante desse cenário, o veganismo se destaca como uma forma de viver que não colabora com o surgimento de vírus letais aos humanos. Fica exposto, então, mais um dos benefícios da dieta vegetariana estrita – aquela que é praticada pelos veganos e exclui todos alimentos de origem animal. Além de não compactuar com o sofrimento animal e a devastação do planeta, o veganismo beneficia a saúde humana não apenas de maneira individual, através do vegano que se torna mais saudável, mas também de maneira global, ao não propiciar o surgimento de pandemias.

Sabendo disso, há quem tenha se interessado mais pelo veganismo. Na Ásia, por exemplo, o consumo de proteínas vegetais aumentou desde o início da pandemia. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos. Por conta desse interesse maior do público em geral por produtos veganos, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) entrevistou com exclusividade a nutricionista Maitê Ranheiri, que deu dicas para aqueles que pretendem transitar da dieta onívora para a vegetariana estrita. Confira abaixo.

ANDA: A crise do coronavírus levou à redução dos serviços em vários setores e com os matadouros não é diferente. Muitos deles estão com atividades suspensas. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) registrou redução de 16% na intenção de confinamento de bois explorados para consumo no estado e afirmou que os principais fatores responsáveis por isso são o aumento no preço dos insumos e a redução do consumo de carne no mercado doméstico. Essa redução no consumo de produtos de origem animal pode levar as pessoas a se abrirem para uma alimentação baseada em vegetais. Como elaborar essa alimentação de maneira saudável?

Maitê Ranheiri: A alimentação baseada em vegetais ou chamada de plant based tem como objetivo conduzir uma alimentação mais natural e sustentável, excluindo alimentos de origem animal. Acredito que esse tipo de alimentação vêm ao encontro de algumas orientações do Ministério da Saúde, como o Guia Alimentar para População Brasileira, que fala sobre utilizar alimentos in natura ou minimamente processados como a base da nossa alimentação, combinar durante o dia alimentos como: cereais, feijões, raízes, tubérculos, legumes, verduras, frutas, castanhas e água. As recomendações gerais para os vegetarianos é basear a alimentação em alimentos in natura ou minimamente processados e a evitar alimentos ultraprocessados.

Sanduíche saudável e vegano (pixabay/mikefish70)

ANDA: Outro cenário surge na pandemia: além da queda do consumo motivada pela crise, há quem esteja descobrindo a relação entre o surgimento de vírus, como o coronavírus, e a exploração animal – assunto que tem sido exposto por especialistas. Essa descoberta pode levar a um interesse maior pelo veganismo, como forma de combater essa situação, deixando de colaborar com ela. No entanto, muitas pessoas ainda enxergam dificuldades para promover essa mudança de hábitos. Acostumadas a consumir produtos de origem animal, não sabem por onde começar. Que dicas você poderia dar para essas pessoas sobre formas de fazer a transição para uma dieta vegetariana estrita?

Maitê Ranheiri: Acredito que cada um tem seu tempo, mas sugiro reduzir aos poucos a carne vermelha, depois as carnes brancas, leite e derivados e ovos, substituindo as proteínas animais pelas proteínas vegetais. É importante que procurem um nutricionista capacitado em alimentação vegetariana pra avaliar o que é possível e sustentável para as pessoas.

ANDA: As proteínas ainda são um tabu para muitas pessoas, por conta da falta de informação. Quais são as principais fontes de proteína vegetal que podem ser consumidas por quem gostaria de se tornar vegano?

Maitê Ranheiri: As fontes de proteínas vegetais são todos os tipos de feijões, lentilha, ervilha, grão de bico e alguns tipos de oleaginosas. Importante dizer que temos que ter uma combinação de fontes de proteína vegetal durante o dia para conseguirmos atingir a recomendação de proteína vegetal.

ANDA: Há quem ainda acredite que não é possível se saciar ao fazer uma refeição baseada em vegetais, tampouco dar conta de atividades físicas que exijam mais do corpo humano – embora fisiculturistas veganos provem o contrário. Quais nutrientes presentes na alimentação vegetariana estrita desmentem esse senso comum errôneo?

Maitê Ranheiri: Alguns estudos mostram que não há diferença entre a alimentação vegetariana estrita e onívora quando se compara resistência e força muscular. Um estudo de abril de 2020 sugere que isso aconteça pela maior ingestão de carboidratos da dieta vegetariana, pois promovem um melhor desempenho de resistência pelo maior armazenamento de glicogênio muscular. Tanto para onívoros quanto para veganos, precisamos de energia para realizar as atividades físicas, isso é, consumir alimentos que são fontes de carboidratos, como cereais, tubérculos e raízes. Caso contrário, não teremos energia para realizar essas atividades físicas. E claro, é importante o consumo de proteínas vegetais também para construção do músculo.

Feijões são fontes de proteína vegetal (arielnunezg/pixabay)

ANDA: Uma dieta livre de produtos de origem animal é adequada para todas as idades. É necessário, porém, realizá-la de maneira diferente para cada faixa etária? Um bebê ou criança, por exemplo, deve ter uma alimentação vegana diferente de um adulto?

Maitê Ranheiri: Como toda alimentação, devemos ter um cuidado maior com as crianças pois estas necessitam de nutrientes por estarem em fase de crescimento. Na alimentação vegetariana não é diferente. O ideal sempre é adequar as necessidades de cada pessoa, independentemente da idade, gênero. Precisamos avaliar questões genéticas e estilo de vida também em todas as idades.

ANDA: Estudos comprovam a relação entre doenças, como o câncer, e o consumo de produtos de origem animal. Ao adotar uma dieta vegetariana estrita, a pessoa pode reduzir as chances de desenvolver determinadas doenças e conquistar um estilo de vida mais saudável?

Maitê Ranheiri: Sim, têm muitos estudos comprovando que os vegetarianos estritos que utilizam os padrões da plant-based têm melhor estilo de vida e menor risco de desenvolver doenças por terem maior consumo de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos com capacidade antioxidante e anti-inflamatória, sendo essa a principal justificativa para os seus efeitos benéficos sobre essas doenças crônicas não transmissíveis.

ANDA: Como nutricionista que presta serviço voltado ao público vegetariano e vegano, você tem observado um aumento na busca pela dieta baseada em vegetais?

Maitê Ranheiri: Tenho observado sim, a procura está cada vez maior. Acredito que o aumento da informação sobre o impacto do consumo de carnes tanto para os animais, para o meio ambiente e pela nossa saúde ajudam as pessoas a se conscientizar sobre isso e acabam pesquisando mais e se interessando pelo assunto, o que é maravilhoso.

ANDA: O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) autorizou consultas nutricionais online. De que maneira, neste momento de pandemia, essas consultas à distância podem ajudar uma pessoa a mudar sua alimentação, adequando-a ao vegetarianismo estrito?

Maitê Ranheiri: Isso ajuda quem quer mudar a alimentação pois podem não ter acesso presencial a profissionais de saúde que estão capacitados para atender vegetarianos e veganos, o que não é fácil, já que é preciso muito estudo para atender esse público.


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Livro conta histórias reais de abandono e adoção de cachorros

A professora Ana Laura Galone decidiu ir além em seu trabalho voluntário em prol dos animais e escreveu o livro “10 contos caninos – uma reflexão para humanos” para doar para a causa animal os recursos arrecadados com a venda da obra. Em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), Ana Laura falou sobre os contos e abordou sua atuação em prol dos animais. Confira abaixo na íntegra.

Divulgação

ANDA: Quais temas são abordados nas histórias retratadas no livro?

Ana Laura Galone: São 10 contos, criados com base em vivências do grupo “Corrente Peluda”. Esse grupo, idealizado por mim, há 5 anos dá suporte para protetores de animais de Sorocaba (SP). A gente mantém essa corrente com caixinha, rifas, tarde de prêmios. Como não podemos resgatar, oferecemos suporte a quem resgata. Durante esses 5 anos, a gente ajudou muitos casos. Então, nesse livro aparecem casos de adoção, de abandono, de adoção de animais especiais, que não andam, o que geralmente é visto como um problema, já que as pessoas não querem adotar animais com deficiência. Mas o livro mostra uma adoção desse tipo.

O abandono na velhice é uma coisa muito comum também e que é retratada no livro. Infelizmente, é bonitinho quando é filhote, depois de idoso vai dar muito trabalho, então é abandonado. Adoção de animal adulto, que também é uma coisa complicada, porque as pessoas querem sempre filhotinho, também aparece no livro. São esses aspectos que trato no livro.

Mas eu sempre falo que o diferencial é que cada história é contada pelo animal, então é a visão do animal contando as suas histórias. E todo o dinheiro arrecadado com a venda do livro é revertido para a causa animal, o que é uma das formas que a gente também tem de ter uma caixinha para ajudar os protetores.

ANDA: Todos os contos são baseados em histórias reais?

Ana Laura Galone: Todos. Inclusive, um deles aconteceu na rua da minha casa. Todos os contos vêm acompanhados de foto do animal que passou por aquela situação. Não é exatamente a história do animal, eu mudo às vezes características como o sexo, se é macho ou fêmea. Mas é para dar uma floreada na história. No entanto, a situação base do conto foi passada pelo animal. E todos os casos receberam algum tipo de ajuda da Corrente Peluda.

ANDA: Tem algum conto presente no livro que você poderia dizer que te marcou mais?

Ana Laura Galone: Sempre me fazem esta pergunta, inclusive quando vou às escolas com a Corrente Peluda para falar sobre o livro e conscientizar os alunos. É o caso do Tupi, que vivia na rua em que moro. Ele foi abandonado com 13 anos. A pessoa simplesmente mudou de casa e o deixou. A vizinha começou a observar que a mulher estava organizando a mudança e o cachorro rodeando. O Tupi começou a pular no carro, tentando entrar. A vizinha perguntou: “você vai deixá-lo aqui?”, e recebeu a resposta: “ah, ele está velho, está acostumado, ele se vira”. A vizinha retrucou, dizendo que isso não aconteceria, que ele precisaria da tutora, mas não adiantou, ela foi embora e o abandonou. A vizinha teve que segurá-lo porque ele queria correr atrás do carro.

Eu conheci o Tupi há uns três anos, ele já estava bem idoso. Uma vez, passou em frente a minha casa e eu o alimentei. Desse dia em diante, ele começou a aparecer todos os dias para comer. Vinha com dificuldade, por conta da idade avançada, mas vinha. A vizinha acabou abrigando-o em sua garagem, inclusive oferecendo uma caminha para ele. Em novembro do ano passado, ela veio me contar que ele tinha morrido dormindo. Me marcou muito essa história porque a vizinha que o abrigou me contou que ele ia todos os dias em frente à antiga casa dele e ficava deitado, olhando para dentro, esperando a família voltar. Foi uma coisa que me doeu por conta da frieza do ser humano.

ANDA: Você falou que faz um trabalho nas escolas. Qual a faixa etária dos alunos e como é esse contato com eles? Como eles reagem?

Ana Laura Galone: Fui professora durante 31 anos. Trabalhei sempre com Infantil e Fundamental I, crianças com idades entre 4 anos e 10 anos. A gente conversa com eles sobre temas como adoção responsável e denúncia de maus-tratos. Explicamos que a denúncia tem que ser feita mesmo quando as autoridades não investigam, para deixar registrado e ter mais força. A gente faz como uma roda da conversa e é muito gostoso, porque geralmente as professoras fazem a leitura dos contos antes e incentivam a curiosidade deles. Muitos ficam na expectativa para falar com a autora do livro, então me sinto uma “super star” quando chego lá. Todos trazem perguntas elaboradas previamente, algumas salas fazem cartinhas com desenhos a respeito de algum conto do livro.

Eu também faço a venda do livro, dou autógrafo, tiro fotos com eles. Eles também têm muitos casos para contar, relatam histórias envolvendo animais que eles e familiares fizeram parte. O objetivo é sensibilizar, na intenção de que a criança leve aquela situação para casa, converse com a família. Conversamos muito sobre se colocar no lugar do animal que sofre com fome, com sede, que sente medo.

É muito bacana, a gente sai de lá enriquecido e com certeza eles também. Teve uma escola que encerrou o projeto pedindo fotos de animais para adoção que foram usadas pelas crianças para confeccionar cartazes sobre esses animais. Eles também pediram doação de ração. Naquele mês nós fomos buscar os sacos de ração e tiveram animais que foram doados através dessa iniciativa deles.

ANDA: Você contou este episódio desta escola que se motivou a ajudar os animais, com os cartazes de animais para adoção e doação de ração. Essa situação foi inédita ou, através da publicação do livro, aconteceu alguma outra ação direta em benefício dos animais?

Ana Laura Galone: A Corrente Peluda participa de eventos, por exemplo, a semana de medicina veterinária de determinada faculdade. Levamos livros e ficamos no local, com um banner, vendendo. Com isso, a gente acaba conhecendo pessoas e conversando. Esse contato levou a um aumento no número de voluntários da Corrente, que começou com cerca de 15 pessoas e hoje tem mais de 30. Todo início de mês, a maior parte dos voluntários doa ração para algum protetor de Sorocaba. A gente consegue cerca de 12 sacos mensais, de 15 kg cada. Já aconteceu também de uma pessoa ficar sabendo do livro e, ao comprar, decidir doar um saco de ração. Uma vez, estávamos vendendo o livro em uma loja e uma pessoa trouxe ração para a gente. Em relação à adoção, a única vez que aconteceu foi na ação feita pelos alunos da escola mesmo. Este ano, a instituição já decidiu que quer incentivar outras salas a fazerem o mesmo.

ANDA: Como surgiu a Corrente Peluda? 

Ana Laura Galone: Há cinco anos, vi uma ONG pedir doação de ração no Facebook e decidi ajudar. Depois, contei para pessoas que trabalhavam comigo em uma escola e elas disseram que gostariam de ser avisadas em uma próxima oportunidade para que pudessem colaborar também. Então, montei um grupo para que pudéssemos nos comunicar. Assim nasceu a Corrente Peluda, nome que eu escolhi. A gente divulga os casos e faz doações de itens necessários aos animais. Além disso, criamos produtos com a marca, como canecas e camisetas, que têm a estampa do grupo, e vendemos para arrecadar fundos.

Divulgação

ANDA: Quantos exemplares do livro já foram comercializados? Interessados em comprá-lo, conseguem fazer isso pela internet? Como funciona a venda?

Ana Laura Galone: Comecei lançando 200 exemplares. Vendi 137 no lançamento e o restante em seguida. Agora estamos caminhando para 500 exemplares vendidos. Devo ter cerca de 50 livros para vender ainda, e aí bateremos o número de 500 vendidos. Quem mora em Sorocaba (SP), consegue comprar comigo através do WhatsApp – 15 991110664 – ou pelo meu Facebook. Vendo para pessoas de outras cidades, desde que paguem o frete. Também já enviei livros para São Bernardo do Campo (SP) e Mairinque (SP).

Não coloquei o livro em livrarias para poder vendê-lo por um preço acessível – R$ 25. É possível comprar também pela Amazon e pelo site Autografia. Já foram enviados livros para o Japão e para os Estados Unidos através da Amazon. Eu prefiro, porém, que os livros sejam comprados diretamente comigo, quando possível, porque pelos sites recebo apenas uma porcentagem do lucro, e quando faço a venda direta, consigo o valor total e destino à causa animal.

ANDA: E os produtos da Corrente Peluda, interessados conseguem comprar de que maneira?

Ana Laura Galone: A sacola e o adesivo temos à pronta entrega. A camiseta e a caneca são vendidas sob encomenda. Basta entrar em contato comigo. Tenho todas as medidas da camiseta para a pessoa ver e escolher. Tem baby look e tradicional.

ANDA: Você disse, no começo da entrevista, que as histórias são contadas pelo animal. Qual foi seu objetivo ao escrever os contos dessa forma?

Ana Laura Galone: Na realidade, comecei a escrever o livro pela necessidade de ter mais dinheiro em caixa para ajudar os protetores. Nunca tinha escrito um livro, embora sempre tivesse gostado de escrever. Eu não queria simplesmente contar histórias, então decidi, para sensibilizar, colocar o animal contando sua própria história. Tem as histórias tristes e as felizes. Coloquei o animal como narrador para fazer as pessoas se colocarem no lugar dele.

Em uma das escolas que estive para falar do livro, uma criança perguntou: “como você sabe que o cachorro estava pensando isso?”. Eu respondi que não sei, mas que me coloquei no lugar dele e imaginei o que ele sentiu. Viver em um abrigo e, de repente, alguém o adota, leva para casa, oferece um lugar quentinho e toda atenção é voltada para ele. Embora o abrigo cuide bem, não é a mesma coisa que ter uma família. Perguntei para a criança: “como você acha que esse cachorro se sente?”. Ela respondeu: “ah, eu acho que ele ficou feliz, que ele gostou”. “Por exemplo, se você ver um animal na rua, revirando o lixo, o que você acha que ele sente?”, perguntei. Eles responderam que o animal sentia medo, vontade de chorar e tinha vontade de ir para perto da mãe dele. Com isso, as crianças conseguiram se colocar no lugar do animal.

E eu achei que escrever os contos assim ficou bem legal e diferente, porque realmente você lê a história e passa um filme na cabeça, até como se você fosse o animal da história. O objetivo foi sensibilizar o máximo possível.


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Bastidores da causa animal: protetora revela rotina do resgate de animais

Casos de abandono e maus-tratos a animais comovem a população rotineiramente. Mas o que existe por trás desta causa nobre? Quem são as pessoas que batalham todos os dias para garantir uma vida digna a animais com um histórico de dor e sofrimento? Para responder a essas perguntas, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) conversou com exclusividade com a protetora de animais Ana Cavalcanti. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Ana Cavalcanti atua na proteção animal desde 2016, mas sempre teve animais resgatados da rua (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

ANDA: Há quanto tempo você está na proteção animal e quantos animais, em média, você já ajudou – através de resgates e outras ações?

Ana Cavalcanti: Oficialmente, estou na proteção animal desde 2016, mas sempre tive animal resgatado da rua. Quando eu era adolescente , eu tinha 16 gatos. Claro que não tinha a consciência que eu tenho hoje em relação a castrar ou vacinar, criar dentro de casa, sem acesso à rua. Mas desde criança eu tenho animal.

Sobre os animais que já ajudei, somando resgates, adoções, castrações e ações que realizei dentro de ocupações, ajudei em torno de 300 animais. Dentre eles, prestei auxílio não só a animais abandonados, mas também a alguns que têm tutor, mas vivem com famílias carentes, que precisam de ajuda para cuidar deles.

ANDA: O que te fez decidir entrar para a proteção animal?

Ana Cavalcanti: Não foi uma escolha racional. Eu não decidi um dia “vou resgatar animais”. Sempre levei ração na bolsa e no carro para alimentar os animais que vivem na rua. Em 2016, comecei a saber de animais atropelados, envenenados, e pensei que aqueles animais não poderiam continuar na rua, já que corriam riscos. E aí, sob influência de uma amiga minha, que inclusive foi a primeira pessoa vegetariana que conheci, há uns 10 anos, comecei a resgatar.

Negão foi adotado pela protetora Ana Cavalcanti (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

ANDA: Qual animal que passou pela sua vida que te marcou mais?

Ana Cavalcanti: Um dos animais que mais me marcou foi o Negão. Hoje ele dorme na cama comigo. Eu cuidava dele na rua, ele era um cão comunitário. Foi diagnosticado com um TVT (tumor venéreo canino transmissível) raro, teve que ser operado, mas já se recuperou. Antes de trazê-lo para minha casa, tentei doá-lo quatro vezes. Ele chorava, pulava o muro das casas e fugia para a rua. Na época, ele sumiu. Ficou 16 dias desaparecido. Quando o encontramos, parecia que um filho meu tinha nascido de tanta felicidade. Desde então, ele mora comigo, dentro de casa.

Outro animal que me marcou foi a Menina, uma cadela que resgatei em Valinhos (SP). Já tem uns 7 anos que ela morreu. Foi muito marcante para mim porque ela foi resgatada com um tumor no baço, já com metástase, e pela primeira vez tive que decidir sacrificar um animal. A veterinária iniciou a cirurgia dela, me ligou e disse que ela não sobreviveria nem mais dois meses e sofreria muito. Foi muito difícil decidir e, para piorar, isso aconteceu no dia do meu aniversário. Chorei muito e tive que lidar com a morte dela, que foi induzida para poupá-la de mais dor.

O Gatão também me marcou muito. Tive que levá-lo em uma veterinária especialista em gatos, após passar por profissionais que não conseguiam descobrir o que ele tinha. Essa veterinária que atendeu é especialista em comportamento. Ela me explicou que existem gatos que ficam ariscos, fogem e se defendem unhando e mordendo, e outros que travam completamente – por conta de traumas e da vida na rua. Os mais comuns são os do primeiro tipo. O Gatão, no entanto, estava entre o segundo. Ele congelava, ficava parado, em pânico, com a aproximação das pessoas. Hoje, após ter sido resgatado e adotado por uma boa família, é um gato super carinhoso, muito fofo. Vendo-o na rua, nunca imaginei que ele se transformaria tanto.

Rock, como passou a ser chamado o Gatão após a adoção, marcou a vida de Ana (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

ANDA: Você falou que teve que lidar com a difícil decisão de autorizar o sacrifício de um animal para aliviar o sofrimento dele. Quais sentimentos você já vivenciou por conta da proteção animal?

Ana Cavalcanti: Impotência é o principal sentimento – faço até terapia para aprender a lidar com isso. É a impotência de saber que tudo depende de dinheiro – e eu acho justo que veterinário cobre mesmo, ele precisa sobreviver, mas é difícil – e de não poder ajudar mais animais do que já ajudo. Mas têm sentimentos bons também. Nem sei mensurar o tamanho da minha felicidade ao ver animais que tirei da rua vivendo em bons lares. Recebo fotos, áudios dos tutores frequentemente e fico tão feliz. Não tem preço. Mas também sinto raiva. Raiva ao ver as pessoas insistindo em comprar animais, colaborando com um mercado que os explora e maltrata ao invés de adotar os que precisam de lares. E tem também meu sentimento ao ver a reação das pessoas a minha militância. Eu tinha amigo no Facebook que me excluiu por causa das coisas que eu posto, mas não vou deixar de militar para ter a aceitação das pessoas. E nessa militância entra não só a proteção animal, como o veganismo. De dois anos para cá, não consigo pensar na proteção animal sem estar de mãos dadas com o ativismo pelo veganismo. E é por isso que eu tenho muito orgulho do Cantar Faz Bem Pra Cachorro, um evento que organizo com a ajuda de outras pessoas.

ANDA: Você falou do Cantar Faz Bem Pra Cachorro. Como surgiu a ideia de realizar esse evento e como ele é realizado? Fale mais do evento.

Ana Cavalcanti: Tudo começou quando resgatei a Amora. Toda noite eu vou às ruas para alimentar animais. Numa determinada noite, vi a Amora em meio a vários cães machos, tentando cruzar com ela. Coloquei ração para eles e fiquei observando qual era fêmea, para resgatá-la. Foi então que ela se assustou, correu em direção a uma avenida e foi atropelada. Ouvi o barulho e pensei que ela tivesse morrido. Comecei a chorar. Cheguei perto. O carro não passou em cima dela, mas acertou a cabeça dela, deixando-a por cerca de três meses com sequelas neurológicas, que foram tratadas. Quando falei do resgate para a Fátima, dona do bar Vila Bambu, ela sugeriu que fizéssemos um evento para arrecadar fundos para o tratamento da Amora. Assim nasceu o Cantar Faz Bem Pra Cachorro, que teve o nome escolhido pela Fátima.

Cachorros são bem-vindos no evento realizado pela protetora (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

No próximo dia 29 de março, iremos realizar a 13ª edição. Sempre no bar da Fátima, sempre com músicos e cantores fazendo música ao vivo, sempre com comida vegana e com toda a renda revertida para os animais abandonados. Me ajuda muito a pagar as contas das clínicas veterinárias. Costumamos fazer o evento a cada dois meses, aos domingos. E além de me ajudar muito financeiramente, o Cantar Faz Bem Pra Cachorro me deixa muito feliz por conta do sucesso que a comida vegana faz. Já fizemos yakisoba, feijoada e chilli. A maior parte do público não é vegana, mas a comida sempre acaba, porque todo mundo come, repete, adora, e volta nas outras edições. Para mim, isso é também uma forma de militar em prol do veganismo. Tenho muito orgulho do evento.

ANDA: Além da aparência física e da questão de saúde, qual mudança você vê no comportamento dos animais após o resgate que demonstra que eles tiveram a vida transformada?

Ana Cavalcanti: A Amora sentia tanto medo das pessoas que foi atropelada justamente porque correu para a avenida assustada. A Pitty também era quieta e medrosa. O Pepe não deixava ninguém chegar perto e mordia quem insistisse. Hoje, ele vira a barriga para cima, brinca, acorda me lambendo. Os animais sentem uma confiança, sentem o amor que a gente dá para eles. A maioria, no entanto, leva muito tempo para mudar o comportamento, meses, até anos, principalmente os adultos que sofreram maus-tratos.

Não sei nem descrever para você a mudança que o animal passa após o resgate. Tem animal que evolui tanto emocionalmente que isso afeta o físico, o pelo fica mais bonito, engorda, a recuperação de algum problema de saúde acontece de maneira mais rápida. Parece que o organismo dele se abre àquela nova energia, a imunidade fica mais forte.

O alfajor foi uma das delícias veganas comercializadas em uma edição do evento (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

ANDA: O que você acha que falta em nossa sociedade em relação ao respeito e cuidado com os animais?

Ana Cavalcanti: Acho que as pessoas têm que parar de comprar animais, mas não só. Nossa sociedade é especista. A educação precisa vir da base. Além da questão de políticas públicas. O castramóvel, por exemplo. Em Campinas, na minha cidade, tem castramóvel, mas é preciso ser melhor divulgado, muita gente nem sabe que existe. As ações de castração realizadas em cada bairro precisam de mais divulgação, para ter mais adesão. Creio também que a questão da proteção animal deveria ser ensinada nas escolas. Falar com os alunos sobre o respeito aos animais, incentivá-los a não abandonar, explicar que abandono é crime, abordar a necessidade de adotar ao invés de comprar, questões assim.

É preciso ensinar que os animais não estão no planeta para servir às pessoas. A cadela não existe para ser forçada a procriar para alguém ganhar dinheiro vendendo os filhotes. O cavalo não existe para ser obrigado a carregar peso puxando uma carroça ou charrete.

As pessoas também precisam ter mais iniciativa, parar de querer repassar casos de animais abandonados e maltratados para ONGs e protetores e começar cada um a fazer sua parte. Faz vaquinha, arrecada recursos, paga o veterinário, dá lar temporário, doa. Não fica esperando sentado.

ANDA: Sobre conscientização, você acha que as pessoas estão mais conscientes, mais abertas em relação a ideia de, por exemplo, adotar um animal?

Ana Cavalcanti: Acho que as pessoas estão se tornando mais conscientes. Viajo às vezes para São Paulo a trabalho, vou em bairros nobres e vejo pessoas tutelando cães sem raça definida, adotados. Tem gente deixando de comer produtos de origem animal. Outros, embora ainda comam, já se conscientizaram sobre os testes e optam por produtos não testados em animais. Ainda tem muito o que evoluir, mas melhorou sim.

Amora é um dos tantos animais resgatados pela protetora (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

ANDA: Qual a maior dificuldade que você enfrenta na proteção animal?

Ana Cavalcanti: Dinheiro. A maior dificuldade é o dinheiro. Tudo custa muito caro. Por exemplo, um hemograma humano custa, em média, R$ 15. O do animal é R$ 40. Precisei me submeter a um exame de ultrassom, paguei R$ 40. O dos animais que resgato não sai por menos de R$ 150. Medicação também é caro. E ninguém quer deixar de gastar um pouco consigo mesmo para ajudar os animais. Então fica díficil, com poucas doações, pouca ajuda.

ANDA: Se você pudesse deixar um recado para os animais que já passaram pela sua vida, o que você diria a eles?

Ana Cavalcanti: Eu diria para eles que faço tudo com muito amor e que se pudesse, faria por muitos outros. E se fosse possível voltar no tempo, faria melhor do que fiz. Quero que eles sejam muito felizes, que aproveitem o resto de suas vidas com suas famílias. Eu falaria para eles que sou muito grata pela oportunidade de fazer o que faço por eles e que a proteção animal me mostrou que sou mais forte do que eu pensava ser. E para cada animal que eu ajudei, eu fui muito mais ajudada. Evolui muito como ser humano, melhorei, aprendi sobre empatia, paciência, compaixão, inclusive com as pessoas, com outras causas. Hoje sou uma pessoa melhor por causa deles. E não quero parar. Dei uma freada nos resgates por conta do meu psicológico. Preciso me cuidar para seguir cuidando deles. Mas não consigo ver minha vida longe deles, longe da militância. Penso, em primeiro lugar, sempre no sofrimento deles.

Ao lado de cachorro, Ana participa do evento em prol de animais abandonados (Foto: Reprodução/Facebook/Ana Cavalcanti)

E tudo me aconteceu meio que ao mesmo tempo: veio a proteção animal, logo veio também o veganismo. Sou vegana pelos animais, por defender a preservação do meio ambiente e entender o quanto o consumo de produtos de origem animal prejudica a natureza e, como consequência, ainda garanto uma saúde melhor para mim e a consciência leve.

Interessados em conhecer mais o trabalho voluntário da Ana Cavalcanti na proteção animal e auxiliar por meio de doações, lar temporário ou adoção, podem entrar em contato com a ativista através do Facebook ou pelo WhatsApp, no número: (19) 99817-3741.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


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Entrevistas, Notícias

Caso de porco registrado em cartório gera ‘ruptura com o especismo’, diz advogado

Pingo de Compaixão é um porquinho que conseguiu algo inédito: ter sua individualidade reconhecida em cartório. Encontrado na margem de uma estrada em Eldorado do Sul (RS), completamente frágil e abandonado, ele foi resgatado e passou a viver no Santuário Voz Animal. A transformação na vida de Pingo foi imensa e, para comentar todo esse processo, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) entrevistou com exclusividade o advogado especialista em direitos animais Rogério Rammê, responsável pela iniciativa de registrar o porquinho em cartório. Confira abaixo.

Reprodução/Instagram/@pingodecompaixao

ANDA: Como começou seu envolvimento com o santuário e com a história do Pingo?

Rogério Rammê: Eu desenvolvo um projeto de extensão universitária chamado DIREITOS ANIMAIS, no IPA, onde sou professor do Curso de Direito. Nesse projeto, desenvolvemos palestras com convidados externos, abertas à comunidade, sobre assuntos ligados à causa animal. Num desses encontros, os responsáveis pelo Santuário Voz Animal foram os palestrantes e desde então passei a apadrinhar um animal do Santuário e a ajudá-los com pequenos conselhos jurídicos quando solicitado. Com a chegada do Pingo ao Santuário, novas necessidades surgiram, mas ao mesmo tempo havia algo simbólico no resgate do Pingo. Me ocorreu então a ideia de registrá-lo como um animal de estimação. Os responsáveis do Santuário gostaram da ideia e fomos em frente com o registro.

ANDA: Como surgiu a ideia de registrar o Pingo em cartório?

Rogério Rammê: Além de professor, eu atuo como advogado na área do Direito Animal e eventualmente realizo registros em cartório de guarda de animais domésticos. Normalmente, esse registro é feito para cães e gatos e nunca havia sido realizado um registro desse tipo para um porquinho no RS. O Pingo foi o primeiro. A ideia de registrar o Pingo teve dois objetivos: o primeiro, de ordem prática, dar visibilidade ao Santuário Voz Animal, por meio do ineditismo da iniciativa. O Santuário precisa muito de ajuda e apoio financeiro para continuar existindo, pois as despesas são elevadas, assim como o número de animais que abrigam; o segundo objetivo foi de ordem simbólica mesmo, ou seja, provocar a reflexão sobre qual a diferença entre um porquinho e um cachorro? Por que um é pet e o outro é animal de produção? Um porquinho pode ser amado e criado como pet? Isso tem um efeito simbólico importante e escancara as contradições do especismo humano.

ANDA: Qual a vantagem para o porquinho de ter sua individualidade reconhecida?

Rogério Rammê: Com o registro, a individualidade de um porquinho fica reconhecida, pois ele passa a ter um nome, passa a ter guardiões responsáveis por seu bem-estar, tem suas características físicas e comportamentais descritas de forma individualizada e, assim, rompe-se o paradigma jurídico de que porcos são coisas, bens de natureza fungível, que podem ser substituídos por outros da mesma espécie na cadeia produtiva em que estão inseridos. O registro dá essa condição de animal de estimação, de companhia, a um animal considerado de produção. E sabemos que há diferenças na forma como interpretamos as leis e o direito para pets e para animais de produção. A maior prova são as próprias propostas legislativas de elevação do estatuto jurídico dos animais, mas que via de regra, asseguram maiores avanços e proteção aos pets do que aos animais considerados de produção, que continuam objetificados e vítimas de intensa exploração. E o registro teve esse efeito simbólico. Muitos passaram a ver o Pingo de Compaixão como um animal-sujeito, que merece respeito e que tem uma dignidade e um individualidade própria.

ANDA: O que significa a mudança de “proprietários” para “guardiões” no que se refere aos tutores do Pingo?

Rogério Rammê: Esse ponto é muito importante, pois insere os guardiões numa relação jurídica não mais de propriedade, mas de guarda, ou seja, de responsabilidade, de afeto, de respeito. A relação não se constrói a partir de um interesse econômico sobre o animal, mas sim a partir do respeito, da empatia, do afeto que os tutores nutrem pelo animal. O Pingo é um exemplo perfeito disso. É muito amado e muito bem tratado pelos seus guardiões, a Fernanda e o Fernando. O Pingo agora integra uma família multiespécie. A carga simbólica disso é transformadora.

ANDA: Você acredita que a história do Pingo pode conscientizar as pessoas e influenciar a luta pelos direitos animais?

Rogério Rammê: Não tenho dúvidas de que é um passo a mais que é dado. Seja pela visibilidade, seja pelo simbolismo, muita gente passou a saber que é possível ter uma relação empática e de maior respeito com animais considerados de produção. Ao fim e ao cabo, queremos o fim da exploração animal e uma forma de despertar as pessoas para essa triste realidade pode ser feita através de pequenos exemplos simbólicos como caso do Pingo de Compaixão.

ANDA: Como foi para você fazer parte desta história e garantir esta vitória para o Pingo?

Rogério Rammê: Eu tenho muito orgulho de ter incentivado os tutores do Pingo a levar a efeito esse registro e de ter de algum modo ajudado a dar mais visibilidade ao Santuário Voz Animal e provocar essa discussão necessária sobre o especismo humano na relação com os animais. Como professor que criou a primeira disciplina de Direitos Animais em uma faculdade de Direito em Porto Alegre, casos como o do Pingo são importantes, pois vão incutindo no nosso cenário cultural uma ruptura com o especismo, com a ideia de animal coisa e gerando muita reflexão.

ANDA: O Pingo provavelmente veio de algum local que o explorava para consumo humano e foi encontrado às margens de uma estrada. Ele, portanto, já deve ter conhecido o pior do ser humano e sofrido bastante. Que mudanças ocorreram na vida dele após a mudança para o santuário?

Rogério Rammê: Acredito que o amor e o carinho que o Pingo tem recebido já provocaram sim muitas mudanças no comportamento do Pingo. Porcos não são diferentes dos cachorros e gatos. São tão inteligentes, sensíveis e simpáticos. O Pingo sabe que agora vive em um ambiente onde recebe carinho, atenção e respeito. Segundo relatos dos tutores, nos três primeiros meses ele precisou de fisioterapia, e foi abrigado por voluntários do Santuário em quatro casas de passagem. Superada esta fase, foram criadas facilidades para sua locomoção no Santuário, em um espaço próprio e adaptado. Hoje o Pingo está adaptado e sem lesões, embora mereça atenção e cuidados permanentes de seus tutores no Santuário. Mas o sofrimento do Pingo chegou ao fim, agora ele nos está a ensinar.


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‘Meu coração se enche de orgulho’, diz mãe sobre filha vegana de três anos

O veganismo pode ser adotado em qualquer fase da vida, inclusive na infância – conforme já foi explicado pela nutricionista Ana Ceregatti, em entrevista à ANDA. Uma prova disso é Eva. Com apenas três anos, a filha da advogada Melina Valério, de Piracicaba (SP), nunca se alimentou de produtos de origem animal. Vegana desde à gestação, a menina já entende que animais não foram feitos para consumo humano e sim para “amar, cuidar e respeitar”. Em entrevista exclusiva à ANDA, Melina contou um pouco sobre a criação da filha dentro do veganismo. Confira abaixo.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

ANDA: Desde quando você é vegana e como foi ter uma gestação vegana?

Melina Valério: Sou vegana desde 2014. Engravidei no início de 2016. A gestação foi maravilhosa. Eu já tinha hábitos de vida saudáveis, praticava esportes e me alimentava bem. Nunca tive qualquer problema durante a gestação, exames de sangue e ultrassons sempre apresentaram ótimos resultados. Tanto que pratiquei atividades físicas normalmente até 8,5 meses de gestação. Só depois disso fiquei somente com caminhada e yoga, coisas mais leves porque o peso da barriga já não permitia atividades mais intensas.

ANDA: Sua filha se adaptou bem ao veganismo?

Melina Valério: Superbem. Ela já nasceu adaptada né, afinal, desde a concepção, foi o tempo todo alimentada somente com comida vegana. E foi assim, passando pelo nascimento até hoje. Ela nasceu com 3,995kg (o que é bastante para uma menina) e 51,5cm, ou seja, bem grandinha e forte.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

ANDA: Embora sua filha ainda seja bastante nova, ela já entende algo a respeito da ideia de que devemos proteger os animais?

Melina Valério: Sim, desde a barriga eu sempre conversei muito com ela. Eu não colocava muita fé nisso de “conversar com a barriga”, mas sempre me diziam que era muito importante fazer. Eu falava sempre. Cheguei a resgatar uma porca quando estava com 35 semanas de gestação dela. Todos os dias eu ia contando pra ela os cuidados com a porca, hoje falo pra ela até que ela participou do resgate, rs. Eu sempre expliquei de forma lúdica. Não dá pra jogar a realidade nua e crua nas costas de uma criança tão pequena. Então, sempre fui falando que animais são nossos amigos e que devemos amá-los, respeitá-los e cuidar deles. Ela sempre entendeu isso muito bem, que bicho é bicho e comida é comida. Eu digo a ela que se a gente comer alguma coisa que vem dos bichinhos, vai fazer dodói neles. É incrível como as crianças assimilam muito bem dessa forma. Na cabecinha dela nunca houve qualquer confusão. Quando pergunto a ela “Eva, o que a gente deve fazer com os animais?”, ela imediatamente responde “amar, cuidar e respeitar”.

ANDA: Você sofreu preconceito ou enfrentou alguma dificuldade com amigos, parentes ou conhecidos por criar sua filha dentro do veganismo?

Melina Valério: Diretamente, nunca. Mas eu sabia que por trás as pessoas comentavam. Soube que havia na família preocupações do tipo “será que não vai faltar nada para a criança?” . Mas o tempo, por si só, acredito que trouxe essa resposta a essas pessoas. Como já disse, Eva nasceu grande e forte. Nunca tive qualquer problema durante a gravidez. Hoje, com 3 anos, ela é uma criança completamente saudável. Nunca precisou ir a um hospital ou pronto-socorro. As visitas à pediatra (vegana também, por sinal, rs) são apenas visitas de rotina, com exames de rotina, que até então sempre trouxeram bons resultados. Também a levo em nutricionista (vegana também, rs) desde que ela nasceu. Claro que ela já teve gripes, resfriados, febrinhas, como qualquer criança. Mas a homeopatia normalmente sempre deu conta e ela se recupera super rápido. Tem uma resistência muito boa e um desenvolvimento absolutamente normal, como qualquer criança.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

ANDA: Você contou com a ajuda de especialistas para aprender sobre a forma correta de alimentar sua filha de forma saudável apenas com vegetais ou aprendeu por conta própria?

Melina Valério: Eu sempre dei muito valor aos nutricionistas. Sempre acreditei que se déssemos mais valor a esse profissional, talvez nossa sociedade não fosse tão doente e não precisasse tanto de médicos. Vou em nutricionistas há anos e faço questão de levar a Eva junto. Por isso, suplementar B12, tomar os devidos cuidados com o cozimento de leguminosas para aproveitar melhor o ferro delas, combinação de alimentos (como associar o consumo de feijões e folhas escuras a alguma fonte de vitamina C), por exemplo, sempre foram práticas habituais no meu dia a dia, e que naturalmente contribuíram para uma gestação saudável, e consequentemente para a criação de uma criança vegana e saudável. Claro que eu também sempre fui muito curiosa e sempre leio muito sobre alimentação, mas jamais deixo o hábito de visitar minha nutricionista regularmente. Ainda mais que minha filha, por estar em fase de crescimento, tem necessidades diferentes das minhas.

ANDA: Sua filha vai à escola? Se sim, você enfrenta ou já enfrentou alguma dificuldade para que a opção alimentar dela fosse respeitada?

Melina Valério: Sei que a minha realidade é um pouco diferente de outras mães veganas que conheço. Eu, particularmente, não posso reclamar. A escola da minha filha sempre foi muito aberta e as educadoras lá sempre se mostraram muito dispostas a fazer as adaptações para a Eva. E não era só com alimentação. A Eva também usava fraldas de pano, que não são testadas em animais e não agridem o meio ambiente como as descartáveis. A escolha por fraldas assim também é uma postura vegana. A escola dela aceitou essas duas coisas muito bem.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

No começo, as professoras tinham mais dúvidas. Qual pão poderia dar a ela, qual macarrão, como fazer bolo sem ovo (coisa mais fácil do mundo rs), dentre outras. Eu sempre fui explicando com a maior boa vontade e amor. Hoje, coisas como homus e danoninho de inhame acabaram entrando para o cardápio. Eram coisas que faziam para a Eva e que gostaram tanto que acabaram oferecendo às outras crianças.

Nos aniversários dentro da escola, servem bolo, pipoca e pão de queijo. Eu sempre mandava o bolo dela e pão de “beijo” (feito com batata doce e mandioquinha) congelado. Certa vez eu esqueci de mandar o bolo. Elas se viraram lá e fizeram um bolo sem ovo, colocaram mais banana. A professora me contou depois que ficou bem melhor que o que elas faziam e esse acabou virando o bolo oficial agora, rs. E assim vai, de pouquinho em pouquinho, vamos plantando essa semente nas escolas. Mas confesso que nesse ponto tive muita sorte. Infelizmente, sei de muitas mães veganas que não têm sua opção tão respeitada assim nas escolas de seus filhos.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

ANDA: Como é para você criar uma criança seguindo os preceitos do veganismo?

Melina Valério: Não vou dizer que seja fácil, porque não é. O mais simples é a própria criança em si. Elas já nascem com uma empatia natural por animais. Desde que nascem, os animais já fazem parte da vida delas, nas roupas, nos brinquedos, nos desenhos, em tudo. Para quem tem animal em casa então, é ainda mais fácil. A empatia delas é nata, não é algo que precisa ser desenvolvido nelas. Nesse sentido, não é nem um pouco difícil explicar que animais são amigos e não comida. Que tem coisas que não comemos porque faz dodói nos animais. Eva sempre compreendeu isso de uma maneira incrivelmente simples e natural, como toda criança vegana que conheço.

O difícil mesmo é a sociedade. É essa criança ver as pessoas que ela mais admira se alimentando de animais e te perguntar o porquê. É você levá-la em festas infantis e ter que levar uma marmita junto para ela não passar vontade daquilo que as outras crianças estão comendo, e que dificilmente será algo vegano. Você levar a um parque de diversões, e saber que a grande maioria das guloseimas de lá não serão veganas. Você explicar porque ela não irá a um zoológico com os amigos da escola, ou no passeio para as famosas “fazendinhas”, dentre muitas outras. Claro que ainda não vivenciei todas essas situações, mas procuro não “pirar” e deixar para lidar com cada uma dessas situações conforme forem surgindo.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

Ela ainda tem 3 anos, então ainda tem muitos desafios que viveremos juntas nessa sociedade que ainda é bem difícil para nós, que escolhemos ser diferentes e falar não para tudo de errado que fazemos com os animais. Mas o caminho que sigo, e que tem dado muito certo por enquanto, é o do diálogo. Eu converso muito com ela e me surpreendo cada vez mais com a facilidade com que ela entende e assimila. Sabendo que a empatia é natural na criança, o caminho é esse. E é dessa forma que sempre conto a verdade a ela, e digo que para tudo aquilo que as pessoas fazem e comem e nós não, sempre haverá uma opção vegana pra gente. Mais legal, mais gostosa, e que não faz dodói nos animais.

Acredito que assim vai dando certo. E meu coração se enche de orgulho quando oferecem algo a ela e ela olha pra mim e diz “mamãe, isso é vegano?”. Com apenas 3 anos. Então não, não é fácil. Mas dia após dia, vivendo um desafio de cada vez, e sempre apostando no diálogo e na empatia natural, é o caminho que tem dado certo pra mim.

Foto: Melina Valério/Arquivo Pessoal

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